PARA A POSTERIDADE - Museu reúne histórias de gente comum
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Emerson Dias<br> Especial para a FOLHA 
Relatos surgem espontaneamente por meio da divulgação do site
As experiências dos jovens mostram os problemas em comum
O grupo dela quer ouvir as pessoas. E não são pessoas que inventaram algo ou ganharam prêmios. Sarah Martins Faleiros faz parte da direção do Museu da Pessoa, uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) que surgiu para guardar histórias de brasileiros, sejam eles anônimos ou não. No último fim de semana, ela participou de um encontro promovido pelo projeto londrinense Alma Brasil sobre Comunicação e Memória.
Durante o encontro, a jovem mestranda em Administração Pública e graduada em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP) falou sobre a experiência do museu virtual, que já arrebanhou mais de 10 mil depoimentos e hoje mantém pólos regionais em dez Estados e núcleos nos Estados Unidos, Canadá e Portugal.
No site (www.museudapessoa.net) é possível encontrar histórias divididas em temas ou integradas a projetos. O mais recente é o ''Um milhão de histórias de vida dos jovens'', que pretende mostrar que crianças e adolescentes também têm histórias de vida ricas. ''As experiências dos jovens mostram os problemas em comum e apontam o que a comunidade deve fazer para ajudar'', explicou Sarah Faleiros.
Qual a origem do projeto do Museu da Pessoa?
A ideia surgiu em 1991 quando a Karen Worcman (hoje diretora geral) fazia mestrado e percebeu que boa parte das entrevistas feitas para a pesquisa, sobre imigrantes judeus em São Paulo, não era utilizada e continha muitos fatos, dados e histórias curiosos. Ela percebeu que as histórias de vida poderiam ficar perdidas em uma gaveta e pensou ''como seria bom se outras pessoas tivessem acesso a essas histórias e (pudessem) entrar em contato com elas''. Foi aí que surgiu a ideia do Museu da Pessoa.
Curioso é que na época a internet não havia sido difundida ainda.
É verdade. Ela sabia que o futuro suporte teria que ser alguma mídia que pudesse fazer com que as pessoas pudessem escutar os depoimentos mais de uma vez. Ela seguiu pensando na ideia até a popularização da internet e foi aí que disse ''vai ser um museu virtual, um portal na rede'' e então surgiu o Museu.
Hoje são milhares de depoimentos e milhares de acessos, mas o objetivo do museu virtual não é seguir a tendência das redes de relacionamento de acumular o máximo possível de associados?
É verdade. São mais de 10 mil entrevistas e 72 mil fotos registradas, além de 46 mil visitas por mês. Na verdade a gente não tem assim uma meta de quantas histórias de vida queremos registrar. Ele é um museu virtual aberto e colaborativo. No site toda e qualquer pessoa pode contar sua história e temos até um espaço aberto na Vila Madalena (bairro de São Paulo), onde as pessoas podem ir e conversar com um de nossos colaboradores. As histórias das pessoas se conectam e por isso elas precisam ser registradas.
O projeto ajuda a termos outra visão da história do País?
É muito importante termos uma quantidade de histórias que consiga dar uma ''cara'' do que é a diversidade cultural brasileira. Depois de tantos registros, a gente não pensa tanto em buscar mais histórias, já que elas surgem espontaneamente por meio da divulgação do site. A gente foca mais em usar este monte de informação que a gente tem e entender qual o potencial da informação para a mobilização social e qual o potencial como fonte de conhecimento. Mas é claro que adoramos registrar as pessoas ainda.
De que maneira a atitude de juntar histórias de vida pode ajudar a sociedade?
Aí é que entra a articulação com outros projetos. Além de receber depoimentos via internet, a gente viaja pelo Brasil organizando encontros nos quais montamos grupos para que todos falem a todos sobre as experiências e os problemas que enfrentam. Em um projeto feito no Nordeste, por exemplo, descobriu-se que na maioria das histórias de vida dos adolescentes havia sempre a presença do alcoolismo. Assim, a comunidade decidiu fazer uma campanha local para combater o vício. As experiências dos jovens mostram os problemas em comum e apontam o que a comunidade deve fazer para ajudar.
A sua função principal no Museu da Pessoa tem relação com a formação de redes? Como funciona este trabalho?
Sabemos que não vamos conseguir fazer isso sozinhos e por isso temos uma grande área de formação e de criação de redes. A gente busca articular com outras organizações que também querem fazer isso. Nós passamos nossa metodologia para que elas ajudem a gente a registrar novas histórias e colocá-las em rede.
Existem encontros ''reais'' com estes grupos ou são apenas contatos e trocas de informações virtuais?
Bom, primeiro tentamos articular com as organizações fisicamente. Criamos alguns pólos regionais pelo Brasil, que também trabalham com memória e desenvolvimento comunitário. São eles que ajudam nesta ampliação porque a gente nunca conseguiria ir, por exemplo, ao Pará para achar organizações que trabalham com isso lá. Isso se repetiu em dez Estados brasileiros. Neste primeiro encontro físico, as pessoas se conheceram e trocaram experiências para depois integrar a plataforma virtual (www.brasilmemoriaemrede.org.br), que possibilita que este contato continue.
E como funciona este contato físico? São encontros, seminários?
Sabemos que o contato físico é importante e por isso a gente tenta fazer uma vez por ano um fórum, que é nacional, para que novas pessoas se conheçam e troquem experiências. O pessoal da Alma Brasil (organização não-governamental londrinense sediada na Vila Brasil) foi em um dos fóruns e descobriu que as dificuldades são parecidas e que o contato se transforma em aprendizado. Um pode colaborar com o outro. É esta a estratégia que a gente tem.
Falando em ONG londrinense, você participou de um encontro na cidade envolvendo pesquisadores, professores universitários, moradores de bairros e jovens. Qual foi sua impressão sobre a mobilização comunitária em Londrina?
Eu achei fantástica, principalmente por conhecer novos projetos locais e encontrar uma equipe muito jovem, como os integrantes da Alma. Eu fiquei feliz porque os convidados ouviram os adolescentes que passaram por oficinas, pelo processo todo do projeto, e ainda puderam ouvir, por exemplo, um professor de história e perceber qual o papel dele na construção desta nova história.
Vendo o site do Museu da História, encontramos livros sobre História Social e História Oral para serem baixados gratuitamente e também links que dão dicas de como fazer uma entrevista produtiva. É possível ensinar virtualmente uma pessoa a fazer isso?
Na verdade fazer entrevista é muito fácil. A gente precisa de muita disponibilidade para ouvir e principalmente não julgar o entrevistado. A ideia de sistematizar virtualmente nossa metodologia foi em cima disso. Para fazer entrevista é preciso ir pegando experiência, fazer mais e mais até conseguir extrair detalhes importantes da pessoa. Esperamos que nossas dicas ajudem.


