O zelador do prédio, fora de suas atribuições e nervoso, pelo constrangedor do momento, teve que carregar nas costas, escadas acima, uma jovem mulher desacordada por tanto apanhar do marido, bêbado e furioso. Subindo com eles, uma criancinha de 4 anos, tomada pelo pânico e pelo amargo da mamãe impotente e arrebentada. Não é ficção e nem comédia, e nem pieguice barata e romântica. Fato acontecido há poucos dias e que chegou ao nosso conhecimento para sacudir, mais uma vez, os brios e os fios do juízo: a jovem senhora fora submetida à transplante de córnea no início deste ano; portanto, ainda requerendo do marido todo cuidado e atenção.
Com um companheiro deste, ainda precisará esta senhora de algum inimigo? Foi encontrada pelo zelador num estado tal que merecia, para ampla vergonha de tal e tais maridos, ser mostrada em todos os canais de televisão, para que todos vissem a quantas chegam os doentes e usuários do álcool. Sinal da vitória do veneno livre sobre o bom senso e a responsabilidade dentro dos lares brasileiros. Vitória do atraso e do vício. Grande vitória nacional das companhias de cerveja!
O Brasil é mesmo um país com alergia idiossincrásica ao essencial e prioritário. Aquilo que nos atormenta, nos empobrece e nos avilta não é tratado de frente e de vez; é empurrado para depois, num jogo que merece toda nossa reflexão e repúdio.
É o caso do alcoolismo. Seguinte exemplo: Aids e alcoolismo. Fala-se e gasta-se tanto com a problemática da Aids, como se esta doença fosse a suprema vergonha e perigo da pátria. E, verdade apurada e depurada, não é. Nem nunca será. A Aids não passa de um grão de areia na praia do alcoolismo. É a doença da moda; enquanto a outra é a doença dos séculos e séculos. O alcoolismo é muito mais ameaçador e catastrófico; e abrangente e mortal para a sociedade. E a mídia nem dá a mínima bola para ele.
Vejo na televisão americana um estudo e uma constatação tão alarmante quanto desoladora: em 60% das desavenças familiares está lá, escancarado ou oculto (tal qual um piolho) a garrafa do álcool. Neste mesmo estudo: mais de 60% dos crimes estão relacionados diretamente com o álcool, que nos EUA se vende e se consente tanto quanto aqui; só que contam com lei mais séria e mais duramente aplicada.
Em terras brasileiras a coisa é muito mais frouxa, muito mais ignorante e muito mais tupiniquim. Não se vê nenhuma política voltada para o enfrentamento deste que, sem nenhuma dúvida, é o maior obstáculo/embaraço nacional nos dias de hoje; estamos afirmando que nem a corrupção é tão purulenta quanto o abcesso da doença alcoólica; esta compromete, com seus prejuízos, mais de 4% do Produto Interno Bruto (muitos bilhões de reais, que são gastos para tapar buracos que o álcool/bebida faz em nosso país). E que você paga também, querendo ou não. Dinheiro que seria muito mais útil em nossas escolas, hospitais, estradas e segurança.
- RENZO SANSONI é médico oftamologista em Uberlândia (MG)

mockup