A cena é relativamente comum. No supermercado, a criança grita, se joga no chão, fica chorando e se debatendo. Quanto mais as pessoas olham, mais o pequeno esperneia, ante o olhar envergonhado dos pais, que tentam acalmá-lo. Depois de falar uma, duas vezes, a reação de alguns é dar umas palmadas.
Parte da plateia não se incomoda com os tapas, afinal o silêncio costuma voltar a reinar. Projeto de lei que deve ser sancionado hoje pelo presidente Lula pretende coibir esse ato. Segundo o PL, pais que forem pegos batendo nos filhos podem ser encaminhados a tratamento psicológico ou psiquiátrico e a cursos de orientação.
Mari Nilza Ferrari de Barros, mestre em psicologia social, participa de projeto de pesquisa e extensão da UEL que atende crianças e adolescentes vítimas de violência. Em entrevista à FOLHA, ela explica como essa forma de punição afeta a criança.
Pais podem usar a palmada como forma de educação?
Sempre que as pessoas usam a palmada é no intuito de resolver um conflito. E a palmada não deixa de ser uma violência. A primeira coisa que a gente tem que entender é que violência não é instrumento para resolução de conflito. Mesmo porque, na medida que você emprega a palmada, mostra para a criança que em situação de conflito é esse o recurso que ela pode empregar.
Você fala que não pode bater, que machuca, que é feio e aí você bate. O adulto é mais forte, tem mais experiência e mais idade. Por tudo isso, já é uma relação desigual. Para corrigir ou educar o melhor recurso é a educação democrática, que se fundamenta no diálogo. E o esforço dos pais é grande porque de modo geral a gente não tem esse hábito de dialogar, de argumentar, para a criança ir aos poucos entendendo. O diálogo, para ser instituído, precisa de aprendizagem, tempo, paciência e compreensão.
Trabalho com crianças violentadas há mais de 10 anos. A palmada produz consequências psicológicas, orais, além das físicas, porque muitas vezes os pais, sem dimensionar a força, acabam machucando a criança. E a palmada não muda o comportamento. Ela suspende temporariamente o comportamento da criança, mas um pouco depois ela vai voltar a fazer.
Então a palmada é o recurso que os pais usam quando perderam o controle?
A palmada é muito empregada porque está instituída culturalmente. Os adultos a usam há muitos anos. A sociedade acha que a palmada pode ser empregada, desde que com limites. E a gente sabe que não há limites, porque são inúmeras as situações em que as crianças sofrem violência. E os pais, tendo sido educados dessa maneira, entendem que é um recurso apropriado. Mas isso não justifica.
Como os pais devem agir quando a criança está fazendo birra?
Ainda que a criança seja pequena, os pais sempre conseguem se comunicar com ela. Às vezes ainda não tem o domínio da linguagem oral, da forma convencional, mas entende perfeitamente o que os adultos falam. A criança deve ter a chance de fazer escolhas. Os adultos precisam sinalizar que não é legal fazer determinada coisa e por qual motivo, e que se ela continuar fazendo vai ficar de castigo.
É claro que no início ela vai resistir e o adulto precisa ter firmeza e explicar que ele avisou que se continuasse fazendo (algo errado) ia ter uma consequência. O mais importante é que tanto crianças como adolescentes entendam que serão responsáveis pelos seus atos.
O pai que começa dando um tapinha hoje, pode acabar dando uma surra?
A gradação ocorre porque os adultos não percebem que a violência não muda o comportamento. Eles acham que se bater com mais frequência ou com mais intensidade a criança vai acatar o que ele está pedindo. A violência nunca pode ser legítima. O problema maior do ponto de vista psicológico é que produz um ressentimento. E isso em algum momento tem que se exteriorizar.
Esse projeto de lei corre o risco de se tornar inóquo, já que será difícil fiscalizar?
Só o projeto é insuficiente. Ele pode servir como alerta.
* Leia mais na pág. 7

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