Em meio ao terremoto econômico de janeiro, veio finalmente a notícia de que há vida sob os escombros. Ainda respirando mal, com escoriações generalizadas e a certeza de graves sequelas, o governo do presidente Fernando Henrique deu sinal de que suas funções vitais ainda estão respondendo. Na TV no último domingo, o ministro Pedro Malan mostrou aos brasileiros que o governo começa a reagir. Segunda-feira, também na TV, Malan repetiu a dose.
A reação é lenta, é verdade. Mas é uma boa nova. A de que o governo saiu da inércia que tanto incomodou e preocupou na semana passada. Desaparecidos, escondidos nos gabinetes, o presidente e seus ministros passavam para a opinião pública a impressão de derrota declarada antes do fim da guerra.
O que mais se ouvia entre políticos e assessores do presidente - e o que mais impressionou - foi a falta de objetividade nas vagas respostas concedidas à imprensa nas calçadas da Esplanada.
A insegurança que tomou conta dos brasileiros contagiou o governo. Desconfiada, traumatizada, a população mostrou que a força dos boatos e dos especuladores foi maior que a do governo combalido, frágil, nervoso.
No domingo, pressionados por quem tem que dar satisfação aos eleitores, assessores de Fernando Henrique decidiram pôr a cara na janela. Apesar de estampar no rosto e na voz a gravidade da crise e o constrangimento pela sucessão de erros, Pedro Malan tentou minimizar a angústia dos brasileiros.
Especialmente daqueles que levam anos e anos para guardar uma pequena economia que servirá para dar entrada na casa própria, trocar de carro, tirar férias com a família, garantir escola e médico para a família. Educação e saúde que o governo não oferece para toda a população.
O que fez o governo - falar à população, explicar o ainda inexplicável - ainda é pouco, pouquíssimo, quase nada, diante dos estragos provocados pela crise. Mas é melhor, sem dúvida, para o País, saber que os responsáveis pelos nossos destinos estão preocupados, trabalhando para salvar o que puderem dos destroços que produziram.
É preciso reconhecer que o presidente da desvalorização do real, do choque do susto é o mesmo Fernando Henrique de 1994, quando se fez o Plano Real. Foi eleito em primeiro turno para a presidência da República e repetiu o sucesso em 1998.
Se os brasileiros, eleitores ou não de Fernando Henrique, estão se sentindo lesados, enganados, têm razão de sobra para isso. Mas se o presidente foi eleito para novo mandato, temos que, no mínimo, torcer para que acerte daqui para a frente e faça o Brasil retomar o sonho de viver sem inflação.
A democracia tem que ser preservada para isso. Até para recuperar o real - tão valioso para quem trocou de moeda tantas vezes nos últimos anos. E cabe exatamente ao governo exercer essa função, ter pulso, firmeza e inteligência na retomada dos rumos da economia.
São muitas as feridas a serem curadas. A mais profunda e dolorosa chama-se credibilidade. Se o governo intensificar o tratamento, poderá fazer com que os quatro anos de governo do segundo mandato de Fernando Henrique sejam suficientes para cicatrizá-la. Do contrário, nem a palavra de honra de Malan ou do presidente da República servirá para qualquer coisa.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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