Pesquisa divulgada pela imprensa, sem encerrar uma grande novidade, tem o mérito de comprovar, com dados estatísticos, fato cujo significado vai muito além do que sugere o título da matéria: ‘‘Pesquisa mostra que Brasil realiza mais cesarianas que o necessário’’. Acrescida a revelação de um ponto que também já é do domínio quase geral: o número de cesáreas na área pública é menor do que o registrado na área privada.
Faltou ao estudo, assinado por ilustre professor da Universidade do Texas (EUA), dizer que isto acontece, entre outras razões, porque o governo tem voltado especial atenção à questão do parto normal feito por enfermeiro obstetra. O que, aliás, não ocorre por acaso, já que esse profissional tem demonstrado, nas casas de parto já instaladas no País, extrema competência no exercício dessa atividade.
E por que não se faz o mesmo no setor privado? Respondendo sem rodeios, é porque só recorre a esse setor quem tem dinheiro, quem pode pagar. Quem não sabe que nos hospitais particulares o anestesista é pago à parte, muitas vezes com valores exorbitantes? E que esse dinheiro é dividido com o médico? Quem ignora que isto também acontece com a instrumentação cirúrgica? Chega a ser escandalosa a forma como as pacientes, mesmo desejando submeter-se a parto normal, são levadas – como o gado no matadouro – à sala de cirurgia.
Tais fatos também explicam por que nas instituições privadas o enfermeiro obstetra, que entende do assunto e tem garantido por lei o direito de fazer parto sem distócia (complicação), não tem vez, não atua, não trabalha. Só tem trabalho e campo de atuação em instituições públicas. Já nas instituições privadas, onde a visão é a do lucro, em detrimento da assistência, cobra-se pela internação, pelo quarto, pelos acompanhantes, pela alimentação. A rede particular de saúde transformou-se, com a visão puramente mercantilista de seus proprietários, em verdadeira máquina de arrecadar dinheiro.
O estudo também não se deteve num ponto crucial: a mortalidade materna. Quantas mães morrem em decorrência de complicações decorrentes das cirurgias? Sem mencionar que cada complicação significa a permanência da paciente mais tempo no hospital ou casa de saúde, consumindo mais remédio, mais alimentação, mais mão-de-obra, enfim, submetendo-se a uma série de despesas e procedimentos que geram mais lucro, sempre em detrimento da boa assistência.
É contra esse estado de coisas que todos devemos nos insurgir. Não se trata apenas de privilegiar o parto normal com maior participação nessa política do enfermeiro obstetra. É absolutamente necessário que o Ministério da Saúde e a Vigilância Sanitária, que têm poder legal de fiscalizar, estejam atentos ao dado da referida pesquisa segundo o qual se fazem três vezes mais cesáreas na rede particular do que na pública. É a prova definitiva e contundente do mercantilismo reinante nessa área. Tudo por obra do lobby fortíssimo, da poderosa confraria que reúne seguradoras e setores da rede privada de saúde.
Neste caso o problema da relação médico-paciente não se refere apenas à falta de diálogo ou daquele elo mágico de que nos fala em seu livro o doutor Alex Botsaris ao referir-se em tom nostálgico ao antigo médico de família . Diz respeito também às diferenças de procedimento. Enquanto no parto normal o profissional faz o serviço em meia hora, lava as mãos e sai, sem risco de complicações, no de cesárea a paciente é obrigada a voltar ao médico para retirada de pontos, pagando (ela ou o seu plano) por esse procedimento e pela consulta, quando não continua voltando ao consultório até ter alta definitiva, cerca de 90 dias após a cirurgia.
Em compensação, no primeiro caso, há situações em que a parturiente é induzida ao parto através de exercícios especiais, podendo esse processo demorar 10, 12 ou até 20 horas. É o caso de perguntar: que hospital privado dispõe de estrutura e que médico tem paciência para ajudar a mulher a ter um parto normal? Por questão de comodidade, pela indisposição para o diálogo ou em razão de uma cultura que privilegia o médico na realização do parto, principalmente na rede privada, o fato é que chegamos no Brasil a uma realidade absurda.
É isso que nos leva a chamar a atenção do governo, da Vigilância Sanitária e das autoridades de saúde em geral para que se mantenham vigilantes não apenas em relação às instituições públicas, mantidas com recursos do Erário, como às pertencentes à iniciativa privada, beneficiadas com recursos generosos do Sistema Único de Saúde (SUS) e que essas autoridades têm – mais que o direito – o dever de fiscalizar e exigir que prestem bons serviços à coletividade.
O lucro fácil que auferem, apesar de condenáveis, poderiam ser até tolerados se não fossem a mortalidade materna e infantil e os danos físicos aos pacientes que atos criminosos e gestões irresponsáveis nesse campo costumam acarretar. E este o nosso alerta: que as autoridades estejam atentas aos rumos do segmento privado da saúde em nosso País.
GILBERTO LINHARES é presidente do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen)

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