As manchetes não deixam dúvidas: o ciúme está na berlinda, estampando os noticiários policiais. Sequestros, assassinatos e violência física praticadas por homens e mulheres têm como justificativa uma suposta relação de posse.

Os casos, nas palavras do psicólogo especialista em relacionamentos Alexandre Bez, são exemplos claros de como o ciúme, se não controlado, pode trazer consequências graves à vida de um casal.

Amor em excesso? Nada disso. Trata-se de paixão desmedida. Segundo Bez, se houver inclinação para o ciúme exagerado, a situação pode evoluir para o ciúme patológico, desencadeando atitudes extremas, como a sucessão de crimes passionais.

Qual a linha tênue que separa o amor da paixão?
Quando falamos em paixão, a conotação é negativa, por incrível que pareça. Aliás, a paixão tem o nome bonitinho, mas está mais para desgraça. Quando o ser humano se apaixona, ele está numa fase fraca e ruim, depressiva, e permite-se apaixonar. Esse sentimento é muito breve. Quando se fala em amor, falamos em doação, ou seja, exatamente o oposto. Quem ama, doa, sabe conduzir a relação, perdoa e é paciente.

Mas fica difícil conduzir uma relação sem ciúme, não? É necessário paciência de ermitão...
Com certeza. Aliás, o ciúme é necessário. Se não há ciúme, não há relação. Mas é importante ressaltar: há o ciúme real, normal, de preocupação, e aquele destrutivo e até letal, que não advém do amor.

Tivemos o caso recente de uma mulher de 31 anos estrangulada com a alça da própria bolsa pelo ex-marido por ciúme. Existe o crime ''por amor'', como muitos réus alegam?
De forma alguma! Não existe o crime de amor, existe, sim, o crime passional, ou seja, motivado pela paixão. Quem alega ''matar por amor'' na verdade tem desenvolvimento psicológico fora dos limites da aceitabilidade. Pessoas possessivas, de caráter possessivo, de gênio muito temperamental, somam situações de ciúme à paixão, o que se converte numa bomba.

A máxima ''um pouco de ciúme não faz mal a uma relação'' é válida?
Se um rapaz disser à namorada que vai a um barzinho e que, além de amigos, encontrará amigas e ela não esboçar nenhuma reação, definitivamente ela não gosta do namorado. Não se trata de ciúme de posse, mas de preocupação. As dicas são três: é normal ter ciúme diante de um perigo iminente; é aceitável, também, ter medo de perder o objeto amado, lançando mão da atenção, e, por fim, é normal também saber do perigo consciente, protegendo quem se ama. O ciúme tem que constar nas relações, mas de maneira normal, não de forma patológica.

O ciúme patológico é sinônimo de quê? Pode ser TOC?
Sim, porque não significa amor, já passou dessa fase há muito tempo. O ciúme patológico é sinônimo de baixa-estima, egocentrismo e egoísmo. O ciumento é necessariamente uma criança insegura e pode ter uma personalidade alterada, isto é, ser psicótico, ou então sofrer de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). O ciúme doentio é baseado na imaginação das pessoas e leva às perguntas e dúvidas mais absurdas a respeito do parceiro(a). O ciúme real leva o indivíduo à fantasia, que opera a mentalidade do sujeito.

Há tratamento para o ciumento?
A questão é que o ciúme está ligado à formação de caráter do sujeito. O que nos molda é a personalidade, composta pelo caráter, que ''termina'', por assim dizer, aos 7 anos de idade. Nesse sentido, é muito difícil uma mudança. Não há remédio para o ciúme. O que é possível fazermos é um trabalho de psicoterapia, que só surte algum efeito se a pessoa de fato tiver boa vontade e estiver aberta às mudanças. Devemos aprender e saber conviver com o sentimento, pisando o pé no freio: os ciumentos são agressivos e não invejosos. Uma característica não concorre com a outra. O rapaz que mata a moça não a mata por despeito, mas sim por ciúme, caracterizado como um transtorno delirante. Por isso, fica a ressalva: cuidado e atenção com seus relacionamentos.

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