Paixão latino-americana - Maria Lucia Victor Barbosa
Paixão latino-americana
Maria Lucia Victor Barbosa
Conforme analisei no meu livro América Latina Em Busca do Paraíso Perdido, editado em 1995 pela Editora Saraiva de São Paulo, na América espanhola os crioulos, ou seja, os descendentes dos espanhóis, nunca hesitaram em utilizar os mesmos abusos cometidos pelos colonizadores contra as populações nativas.
Essas atitudes provocariam várias rebeliões de escravos, como as havidas no México em 1624 e 1692, no Peru em 1781 e depois no Haiti em 1791. Eram explosões sociais provocadas pelos abusos dos que detinham o poder e pelo contraste entre riqueza e miséria. Naquelas sociedades desiguais, o preconceito, a ambição desmedida, a intolerância e a violência eram o estopim das rebeliões. Seriam assim engendrados os caudilhos, decorrentes naturais de um processo histórico e social, protótipos dos futuros governantes da América Latina.
Esses pequenos ditadores eram intimamente associados à Coroa e à Igreja, desfrutando assim as delícias do poder, e enquanto enviavam ouro e prata para a Espanha, aumentavam suas fortunas pessoais. Ao mesmo tempo, a larga base da pirâmide social formada por índios, negros, mestiços e brancos pobres, sobrevivia sem nenhuma perspectiva de avanço econômico, cultural ou técnico. Prosperavam também o suborno e outras formas de corrupção que grassavam na Espanha decadente.
Mantidas as estruturas sociais da desigualdade, avolumou-se a questão política e foram deitadas as profundas raízes da instabilidade institucional, quando o rompimento com a metrópole, processado entre 1810 e 1824, findou um equilíbrio sem conseguir outro no seu lugar. Era o estilhaçamento do império e o nascimento das repúblicas sob a égide dos caudilhos. São eles que emergirão das guerras da independência, lutando à frente dos seus bandos armados.
Entretanto, apesar de representarem seus povos e serem dele reflexo, não é menos verdade, como afirmou Carlos Rangel, que o exercício destas ditaduras eficazes não foi muito bom de ver, e ainda menos agradável de suportar. Tudo isso significa que as revoluções das oligarquias nativas continham muito mais o elemento da tradição que o de mudança. O que se desejava era alterar a composição do poder e não a sua essência. E desse modo, nas desiguais sociedades latino-americanas, o isolamento entre as camadas sociais, a falta de minorias seletas que comandassem o processo emancipatório, a inexistência do espírito associativo substituído pela vivência do pequeno mundo familiar ou clânico, gerarão o desequilíbrio estrutural cujas manifestações mais graves até hoje sentidas são a instabilidade política, o atraso econômico e, no plano cultural, a desconfiança generalizada e o individualismo.
Esta resumida história da América Latina explica melhor o que se passa nesse recanto do mundo que se supôs outrora fosse paraíso perdido, e exemplo dos ecos do passado se materializam nesse momento na Venezuela. Neste país, em 1992, o então tenente-coronel Hugo Chávez tentou, à moda dos caudilhos, tomar o poder através de um golpe. Fracassou, mas agora conseguiu se eleger presidente estribado em suas artes populistas, ressaltadas sobretudo através da televisão. Sua imagem é construída ora como se ele fosse a encarnação de Simón Bolívar, ora como se possuísse a coragem heróica de um Rambo audacioso. Em suma, nele se consubstancia o salvador da pátria, o condutor do povo, o demagogo ardiloso capaz de manipular as emoções da massa a favor de suas ambições desmedidas de poder.
Ao assumir o governo, Chávez manobrou no sentido de fabricar uma Assembléia Constituinte que lhe conferiu na prática plenos poderes, e agora se prepara para fechar o Congresso, intervir no Judiciário, militarizar o poder e o centralizar em suas mãos, assumindo plenamente a característica ditatorial. Ao mesmo tempo, faz agrados aos pobres da Venezuela e às Forças Armadas Revolucionárias (Farc), sanguinária guerrilha de esquerda colombiana aliada ao tráfico de drogas, intrometendo-se desse modo na política de outro país. Tudo isso nada mais é do que a reprise de um filme antigo, centenas de vezes passado na América Latina, e cujo enredo é responsável em última instância pelos mais de 500 anos de atraso, miséria e subdesenvolvimento dessa porção do mundo.
O Brasil não escapa dos mesmo males. Claro que de forma peculiar. Aqui, a dominação portuguesa abrandou radicalismos numa versão de desleixo tropical, transformado depois na permissividade complacente, nas formas inconstantes, no ir e não ir, no ser e não ser. Mesmo assim, não escapamos da fascinação do caudilhismo e da dependência do pai-Estado. Em nós, há a mesma paixão latina pelo poder centralizado, pelo nacionalismo xenófobo, pelos salvadores da pátria, pelas revoluções equivocadas. E isso explode nas intenções golpistas do caudilho Leonel Brizola, nas loucuras do Mussolini das Alterosas (Itamar Franco) ou nas palavras de Lula, figura emblemática do PT. Este último fez aflorar sua porção de caudilho quando exaltou Chávez no dia 15 deste mês, declarando na Argentina, ao jornal La Nación: Já tive reuniões com Hugo Chávez. Nas duas vezes em que ele foi no Brasil, nos encontramos. Acredito que ele é uma pessoa fantástica e que conhece perfeitamente as dimensões dos problemas da Venezuela.
Nesse momento, no Brasil a conjuntura faz lembrar uma espiral da história, quando a vacilação de João Goulart uniu contra ele forças contraditórias de esquerda e direita. O resultado se conhece. Agora, a mesma vacilação e a mesma união ressurge por força das insatisfações de grupos sociais diversos, provocadas por morosidade, incompreensão e falta de autoridade da parte de um governo que tinha tudo para dar certo. Desta vez, porém, se as dificuldades não forem adequadamente controladas pelo presidente, que se encontra acuado por vários movimentos sociais de protesto, veremos o triunfo do caudilhismo banhado na mais exaltada paixão latino-americana que se diz de esquerda e que, cultora mentalidade do atraso, nos legará, pelo menos, mais 500 anos de solidão. É nossa velha ingovernabilidade que está de volta.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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