Já não mais recorrem a evasiva. Os economistas que rezam pela cartilha tucana estão receitando mais desempregos como remédio para o problema do... desemprego. Talvez seja uma fórmula engendrada para salvar os próprios empregos.
O governo levou longe demais sua paixão pela política cambial manipulada pelo Banco Central. A sobrevalorização do real construiu uma armadilha que impõe restrições ao crescimento da economia, eternizando altos níveis de desemprego. Não é por acaso que estamos assistindo ao acirramento de tensões sociais no campo e nas cidades.
Na verdade, não é o governo que está prisioneiro do real sobrevalorizado, mas sim os trabalhadores brasileiros que diariamente procuram trabalho e não encontram ocupação. Os dados do primeiro quadrimestre do ano na Grande São Paulo são os piores dos últimos 12 anos: 16% da população economicamente ativa está desempregada. A indústria continua cortando postos de trabalho e não há oferta de empregos mesmo para os serviços mais humildes. No cômputo geral, o mês de abril fechou com 1 milhão e 350 mil desempregados em São Paulo: é o equivalente a uma população inteira da cidade de Recife à procura de vagas.
Qual é a reação do governo para enfrentar o problema?
Os economistas do governo se recusam a discutir políticas para a retomada do crescimento e ainda comemoram a queda do ritmo da atividade. Eles aplicam o princípio da homeopatia: o semelhante se cura com o semelhante. A cura do desemprego se fará com mais desemprego! Em defesa de tal terapia, nos informam que o cidadão está desempregado porque não está qualificado para o nível de ciência que o ‘‘mercado’’ de trabalho exige no mundo ‘‘globalizado’’... E garantem que o Ministério do Trabalho está ‘‘reeducando’’, ora 2 milhões de trabalhadores, ora 1 milhão, sem que ninguém saiba onde isso está se realizando. Com os postos de trabalho se extinguindo em todos os setores, onde eles serão realocados, se o objetivo continua sendo o de reduzir o nível da atividade econômica?
Sempre entendi que os economistas existem - ou deveriam existir para possibilitar aos governos programas de crescimento da economia, com estabilidade interna e externa. É difícil aceitar o discurso atual da maioria dos ‘‘nouveaux économistes’’ defendendo a recessão e o desemprego como as vias adequadas para a promoção do bem-estar da sociedade. É fantástico que uma categoria quase inteira de profissionais continue indiferente diante do agravamento das questões sociais derivadas do alto nível de desemprego, apenas porque em Brasília se decidiu sobrevalorizar o real!
O governo reclama que não se oferecem alternativas para a sua política. Que qualquer mudança porá a perder o programa de estabilização.
É evidente que há alternativas. De outra forma a humanidade ainda viveria o período da pedra lascada. Elas já foram apresentadas há uns trinta meses, mas vou repetí-las. Para voltar a crescer, sem provocar inflação, são necessários os seguintes movimentos: 1) ampliar a banda cambial, deixando que a taxa procure seu ponto de equilíbrio; 2) baixar as taxas de juros internas até o nível próximo das taxas de juros externas; 3) um reajuste linear nas tarifas de importação (uma alíquota de 10% por exemplo); 4) reduzir o déficit público, cortando despesas estatais e utilizando os recursos das privatizações no abatimento da dívida pública.
Qualquer governo minimamente competente pode realizar esses movimentos, sem depender do Congresso. Aliás, o Congresso não tem negado nada a este governo, toda vez que o governo mostrou à sua maioria parlamentar o que realmente desejava. Não recusou nem mesmo a reeleição do Presidente...
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é ex-ministro da Fazenda e do Planejamento e deputado federal (PPB-SP)

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