''Países terão de reduzir emissão de CO2''
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de julho de 2000
Vânia Casado De Curitiba 
FolhaO que é essa história de sequestro de carbono?
LangerTrata-se de um jargão utilizado entre fundos e investidores internacionais voltado para a área do meio ambiente. Como toda floresta e vegetação têm o potencial de sequestrar ou fixar o carbono em forma de madeira, esse processo está virando moeda de troca. Durante a fase de crescimento, o papel de toda floresta é absorver CO2 para fazer produção de energia. O sequestro ou sumidouro tem o poder de fazer sumir o carbono que está em excesso na atmosfera e fixá-lo de alguma forma. Nos reflorestamentos, é fixado em forma de madeira. Na agricultura, é fixado em forma de vegetação.
FolhaDe que forma está virando moeda de troca?
LangerA evolução das pressões ambientais gerou o processo de economia florestal, através do surgimento de uma commoditie ambiental. Essa commoditie pode ser medida na forma de toneladas de carbono que um ecossistema pode fixar. Exemplo, uma floresta na fase de crescimento pode sequestrar o carbono, e ao final do ciclo, sabemos quanto de carbono existe contido na floresta.
FolhaQuando surgiu a preocupação com o carbono?
LangerApós a revolução industrial, a emissão de gás carbônico no planeta passou a influenciar com mais intensidade nas mudanças climáticas, como poluição e catástrofes ambientais. Começou a surgir pressão de cientistas, políticos e técnicos internacionais para reduzir esse carbono da atmosfera, que em excesso está causando um adensamento da camada de ozônio. Os gases pertencentes ao efeito estufa, que é a nossa camada de proteção, começaram a se adensar e elevaram as temperaturas no globo terrestre. Com a retirada do carbono da atmosfera, diminui a densidade do efeito estufa e permite a liberação de calor.
FolhaDaí a preocupação em extrair o carbono da atmosfera?
LangerExatamente. Mas como retirar esse carbono da atmosfera? Através da mudança da base tecnológica, para tecnologias limpas como energia eólica, de biogás, hidrelétricas, que não queimam combustível, ou então através de projetos florestais. Com essa preocupação, começou a se perceber e identificar quem estava fazendo as grandes emissões de carbono na atmosfera.
FolhaQuem são os maiores responsáveis pelas emissões de carbono?
LangerHoje é possível saber que 70% das emissões de carbono são decorrentes da queima de combustíveis fósseis, que vêm em sua grande maioria dos países industrializados. Os maiores responsáveis pelo uso de carbono são exatamente esses países, com o tráfego intenso de aviões, carros, máquinas, etc. Os outros 30% vêm do uso indevido da terra, quando se retira a cobertura vegetal e expõe o solo às radiações solares.
FolhaQuando iniciou a preocupação em reduzir a quantidade de carbono emitida na atmosfera?
LangerApós a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro, começou a intensificar a preocupação com medidas de controle e minimização dos efeitos ambientais negativos causados pelos efeitos do aumento do carbono. Naquele momento, ainda não se sabia que o carbono era o grande responsável pelos desequilíbrios. Hoje há o reconhecimento de que 38 países que possuem as maiores economias ou são emergentes, contribuem com altas taxas de carbono na atmosfera.
FolhaOs países industrializados ou mais ricos concordaram com essa conclusão?
LangerSim, porque eles sentiram que as alterações climáticas também ameaçam a eles. Com o aumento contínuo das temperaturas, muitos países irão deixar de existir porque estão no nível do mar. Os países baixos da Europa e ilhas como Cuba e a Islândia também estão ameaçados. Isso porque o aumento da temperatura provoca o derretimento das geleiras, elevando o nível da água. Além disso, o aumento da temperatura também promove a expansão da água, que pode chegar até um metro de altura do nível do mar, comprometendo até mesmo os nossos litorais.
FolhaComo foi regulamentada essa discussão?
LangerEm 97, com o resultado das discussões criou-se o protocolo de Kyoto, um documento com políticas e legislação específica, que tem que ser ratificado por todos os países no mundo, para ser válido internacionalmente. Ou pelo menos por 55% dos grandes emissores de CO2, para ter força de lei. Os Estados Unidos, grande poluente, estão resistindo em assinar o protocolo, porque inclui também a mudança de bases tecnológicas. O país sabe que tem que pagar, mas quer que outros países também assumam a responsabilidade.
FolhaQual o acordo previsto no protocolo de Kyoto?
LangerOs países terão que reduzir as emissões de CO2 e também fixar essas emissões, ou seja retirar o que já emitiu. Ocorre que uma mudança de tecnologia no Japão e na Europa é muito mais cara que uma mudança de tecnologia no Brasil, daí a resistência dos países mais desenvolvidos. Uma pesquisa feita por instituições internacionais aponta que os 38 países vão ter que reduzir, em média, 5,2% das taxas de emissão registradas em 1990. É um compromisso que será firmado com a população mundial, quando o protocolo for ratificado.
FolhaComo será possível essa redução?
LangerEntre 2008 e 2012 os países terão de apresentar seus projetos, apontando aonde vão fixar o carbono que emitem. Terão que entregar uma lista, dizendo os números de emissão e onde estão fixando o carbono. Exemplo, se um país emite 500 toneladas de CO2 por dia, terá de apresentar um projeto que fixa 500 t/dia.
FolhaOnde serão executados esses projetos?
LangerNa reposição, poderão ser feitos em qualquer área do planeta, porque o globo terrestre é um ser vivo. Nós sentimos aqui a poluição emitida pelo Japão. Não existe nenhuma ação que se faça no mundo, que não provoque reação. Por isso, os projetos de reposição de carbono podem ser executados em qualquer local do mundo. Ocorre que os investidores estão se voltando para os países pobres ou em desenvolvimento, como é o caso do Brasil.
FolhaQuem vai financiar esses projetos?
LangerOs próprios 38 países mais industrializados ou emergentes. Para isso, vão ser estabelecidas as regras. Primeiro tem que ter o reconhecimento internacional do país onde está inserido o projeto de carbono e ele tem que ter a intenção de sequestrar o carbono. Essa intenção tem que ser declarada e precisa realmente ocorrer.
FolhaOs projetos serão válidos somente para áreas reflorestadas?
LangerNão, a fixação de carbono pode ocorrer com áreas de floresta nativa também. Nesse caso, serão consideradas as externalidades. E quanto mais expressivas as externalidades, maior a valoração do projeto. Exemplo disso seria um projeto de fixação de carbono na nossa Mata Atlântica. Como não se pode plantar, substitui-se por um projeto para quantificar quanto de carbono existe na área. E qualquer ação de intervenção para melhoria da capacidade de fixar o carbono é calculada como o valor da biodiversidade da Mata Atlântica. São valores subjetivos, mas que serão calculados. Até uma mata nativa no meio de uma cidade tem seu valor e pode ser calculado num projeto de sequestro de carbono.
FolhaO que mais é considerado externalidade?
LangerEm reflorestamento ou preservação de matas nativas, tudo isso pode ser traduzido em valor econômico, na forma de quantia de carbono. Essas externalidades são assumidas porque elas geram tanto de bem-estar, preservação de animais, ajudam a resolver questões sociais, como a geração de emprego e renda para a população nas áreas de florestas.
FolhaO sequestro de carbono poderá ser utilizado para preservar as áreas de florestas nativas brasileiras, é isso?
LangerÉ, temos uma grande ferramenta em nossas mãos para preservar nossas áreas naturais. Hoje sabemos que nossos parques estão abandonados ou com conservação precária. Por que não buscar projetos de preservação através de um fundo de carbono?
FolhaQual a posição do governo brasileiro em relação a essa discussão?
LangerO governo não vinha sendo favorável a adotar esses projetos por aqui, pelo menos enquanto o assunto era capitaneado pelo Ministério das Minas e Energia, que representava o país na Conferência de Kyoto. Nessa conferência, o País estava mais voltado a debater novas tecnologias, esquecendo de discutir as questões ambientais. Porém, há pouco mais de um ano o Ministério do Meio Ambiente assumiu esse processo e as coisas devem mudar. A Costa Rica já se adiantou e mapeou todas as suas florestas e colocou seus créditos para serem negociados na Bolsa de Chicago.
FolhaJá existem investimentos em sequestro de carbono?
LangerMesmo que o Protocolo de Kyoto não esteja ratificado, existem pessoas e empresas com visão de futuro. São investidores dispostos a assumir o risco e antecipam os recursos para execução dos projetos. A nossa previsão é que até o final de 2001 o assunto carbono será de domínio em todo o mundo. Hoje a commoditie está avaliada em cinco dólares a tonelada. Depois de ratificado o protocolo, irá valer cem ou 200 dólares a tonelada, dependendo da relação de mercado. Os créditos poderão ser guardados e negociados em bolsa.
FolhaQuem é responsável por executar esses projetos?
LangerSão instituições internacionais reconhecidas pelos países interessados em sequestrar o carbono. A empresa Ecosecurities, da Inglaterra, é responsável pelo maior número de colocação de projetos carbono e de venda a investidores. Atualmente, está trabalhando com uma carta de financiadores que permite a captação de uns cinco a seis milhões de dólares.
FolhaJá existem projetos de sequestro de carbono no Brasil?
LangerSim, na região de Guaraqueçaba. A organização não- governamental (ONG) Sociedade de Proteção da Vida Selvagem (SPVS) elaborou a proposta, que foi enviada à TNC entidade internacional, com sede na Inglaterra, que validou o projeto. Em seguida, foi vendido pela Ecosecurities, que captou cerca de US$ 2 milhões. O projeto de sequestro de carbono de Guaraqueçaba corresponde à Área de Proteção Ambiental (Apa).
FolhaQuer dizer que esse negócio passa a ser um filão para as organizações não-governamentais, as ONGs?
LangerO papel das ONGs é creditar o projeto (validar), no sentido de reconhecer o potencial e a capacidade do projeto, e ainda o trabalho de acompanhamento do desenvolvimento do projeto. Principalmente se o projeto se refere a uma área pública onde não tem um órgão gerenciador, a ONG teria uma participação expressiva no monitoramento e aplicação dos recursos investidos. Se for empresa privada com seu sistema de gerenciamento, ela recebe diretamente o valor dos investimentos.
FolhaO produtor rural pode se interessar por um projeto de carbono?
LangerO projeto de carbono se aplica a qualquer área. Com um diferencial: quanto maior o projeto, mais fácil vendê-lo. Isso porque as quantidades de emissão são altíssimas e os governos querem projetos grandes de retenção de carbono. E não projetos pontuais. Por isso, recomendamos a formação de um condomínio de proprietários interessados em fazer um reflorestamento ou preservação de área nativa.
FolhaExiste algum outro projeto em fase de elaboração no País?
LangerAtualmente estou desenvolvendo um projeto em Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, para a Reflorestadora Unidos. A empresa está ampliando as áreas de reflorestamento, buscando a melhoria de suas atividades e ao mesmo tempo está pleiteando créditos junto a investidores internacionais, a título de ganho de conservação e econômico.
FolhaMas os projetos de sequestro de carbono permitem o uso das florestas?
LangerOs projetos não impedem o uso racional da mata reflorestada ou nativa. Tudo é estabelecido no contrato. Exemplo, se o ciclo de produção do pinus é de 20 anos, o projeto será de 20 anos. Depois desse período, o contrato pode ser renovado ou não.


