Passados mais de dois anos e meio do Plano Real, e apesar dos sacrifícios impostos a tantos brasileiros - embora se diga que os pobres ficaram menos pobres, quando, na verdade, eles se afastaram ainda mais das minorias ricas - o Brasil continua atolado no patamar dos países em eterno desenvolvimento, agora com uma agravante: o aumento do desemprego.
A retórica neoliberal das nações industrializadas, em defesa dos princípios do livre mercado, não consegue, no entanto - à exceção dos cegos que fazem questão de não ver - ocultar a realidade nua e crua do empobrecimento crescente dos países do segundo e do terceiro mundos.
Quem melhor desnudou essa realidade foi o primeiro ministro Chedid Jagan, da Guiana, ao dizer um basta às injustiças da nova ordem econômica do mundo, na Conferência Mundial de Alimentos, realizada recentemente em Roma. Suas palavras encontraram pouca ou nenhuma receptividade na imprensa mundial.
A ordem econômica hoje reinante, segundo Jagan, implica o roubo anual, do sul pobre, de cerca de US$ 500 bilhões, através de um comércio internacional injusto, sem equivalências de critérios para a fixação dos preços de produtos importados ou exportados, entre os dois hemisférios.
O sul, cujas matérias-primas estão sendo negociadas a preços cada vez mais baixos, financia, pois, o enriquecimento do norte riquíssimo. Entre 1982 e 1990, o fluxo de pagamentos realizados pelo sul, à conta de serviços da dívida externa, foi de US$ 418 bilhões. Os pagamentos efetuados, porém, não reduziram um centavo sequer do principal das dívidas sulistas. Tal importância equivale a mais de seis vezes o total de gastos dos Planos Marshall, para a reconstrução da Europa, após a segunda guerra mundial.
Não estão incluídos nesses montantes os recursos desviados do sul para o norte a título de cobrança de royalties, dividendos, remessa de lucros e preço de matérias-primas subvalorizadas. Jagan disse que a Guiana efetuou, entre 1992 e 1995, pagamentos de juros e serviços de sua dívida externa estimados em US$ 308 milhões. Para fazê-lo, o país teve de cancelar planos de habitação e programas de alimentação e saúde.
Essa política geral de expoliação não poupa nenhum país do hemisfério sul. Até se diz que, quanto mais ricos forem os expoliados, maior será a expoliação. O Brasil deve figurar, portanto, entre os principais contribuintes para os cofres do hemisfério norte. Como o Plano Real deu ao país a aparência de boa saúde, suas veias e artérias parecem estar permanentemente abertas à extração do sangue de seu povo pobre.

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