Paisagens perdidas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de dezembro de 2001
Humberto Yamaki 
As paisagens são, segundo Relph (1987), o ''contexto visual da existência quotidiana, tão óbvias, tão esquivas...''. Talvez essa obviedade seja o motivo principal para que profundas e irreversíveis transformações em nossas cidades ocorram frequentemente de maneira silenciosa, desapercebida.
Um morador das redondezas veio fotografando durante cinco anos, persistentemente, os detalhes do Igapó: reflexos e transparências. No dia a dia, edificações acabam se constituindo em elementos nas silhuetas crepúsculo ou reflexos quase rabiscos.
Não deixa de ser sintomático, no entanto, que recentes propagandas e encartes sobre Londrina realcem a verticalização no entorno do Igapó, como um ideal estético, ato quase civilizatório. Ontem perobas, hoje edifícios. A logomarca de uma das secretarias da Prefeitura, uma avenida sinuosa tendo ao fundo um skyline de edifícios, se realiza.
Os antigos diziam sabiamente que uma cidade não deveria ocupar terras férteis. No momento em que se discute a sustentabilidade, conjuntos habitacionais a perder de vista merecem reflexão. Para fins de moradia, não é sensato ocupar terras planas e aráveis.
Sob esse aspecto, a verticalização de áreas como a da Gleba Palhano talvez seja opção correta. Não da maneira desordenada como vem ocorrendo, um jogo de forças onde o mito da preservação da paisagem torna-se ainda mais forte. Pode-se ainda orgulhar do número de torres construídas, não mais do panorama cada vez mais perdido.
Passados vários meses de discussão, o projeto de revitalização do Igapó 2 continua como uma sobreposição de desenhos em papel opaco, não há sincronia, nem visão integral. A água vermelha e barrenta destes dias de chuva de verão evidencia a necessidade de solução que transcende a inquéritos e pistas de caminhada.
Lembro Gregotti (1972): ''Mas, em última análise, o peso da valoração da paisagem recai não só sobre os órgãos protetores como também depende das condições de maior ou menor progresso da cultura arquitetônica e urbanística que, não tendo possibilidades, nem capacidade nem vontade de projetar, se limita a uma obra de defesa perante as pressões imobiliárias. Se o território não está sujeito a nenhum vínculo, não existem normas (a não ser a da mera densidade) que regulem os comportamentos, e as propostas são avaliações independentes mais que projetos capazes de servir-se das forças em expansão, com o objetivo de intensificar o sentido e a qualidade da paisagem mesma.''
Zonas de ''não paisagem'' vão dominando Londrina.
HUMBERTO YAMAKI, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento Paraná


