Paisagem norte-paranaense 1930
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de dezembro de 2012
Humberto Yamaki 
Descobertas recentes permitem reescrever detalhes da moldagem da paisagem norte-paranaense. Um dos documentos gráficos mais antigos da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) foi reencontrado num arquivo público da cidade. Trata-se da ''Planta Parcial de 'Colonisação das Glebas dos ribeirões Três Boccas, Jacutinga e Vermelho''' de autoria do ''engenheiro'' Alexandre Razgulaeff. Datada de 1930, é provavelmente a primeira planta elaborada pelo topógrafo russo no sertão paranaense. Antes, somente a Planta Parcial de 1933 era conhecida entre nós.
A recém-identificada Planta Parcial de 1930 detalha o início da organização em glebas, a localização dos primeiros dois patrimônios, a implantação preliminar da ferrovia e estrada de autos, a indicação de rede de caminhos além das primeiras subdivisões de lotes rurais. É fundamental para a compreensão dos primórdios do processo de planejamento e ocupação da região.
Embora bastante desgastada, ainda é possível extrair muitas informações. Dentre elas, podemos citar as marcações de existência das fazendas Palhano, Coati e Binel, incrustadas em suas terras. Seus limites foram importantes para a definição dos primeiros parcelamentos de lotes rurais.
Uma observação atenta da planta permite apreender, simultaneamente, as várias etapas de trabalho dos topógrafos conforme avançavam em direção à serra de Apucarana. A atividade era iniciada com a localização e denominação de córregos e ribeirões. Logo a seguir eram identificados os espigões para a construção de estradas. A partir dessas etapas, eram iniciados o parcelamento em lotes rurais. Paralelamente ocorria o projeto de patrimônios.
Importante lembrar que, ao mesmo tempo em que os topógrafos da CTNP faziam os primeiros levantamentos, os engenheiros ingleses da Macdonald & Gibbs Co. Ltd. realizavam a exploração para projeto e implantação da ferrovia e da estrada de autos a partir de Cambará.
A identificação de bacias dos ribeirões era de fundamental importância para a implantação de patrimônios, definição de área das glebas e subdivisão em lotes rurais. Segundo relatos de topógrafos pioneiros, os nomes de ribeirões existentes em escrituras antigas eram mantidos. Novos nomes eram decididos utilizando um dicionário tupi guarani, relação de acidentes geográficos, nomes de santos, cigarros, times de futebol ou mesmo de namoradas e esposas.
Além das tortuosas linhas representando os ribeirões, sobressaem as linhas tracejadas que indicam os espigões. Dentre elas, talvez, a mais importante seja a que divide as grandes bacias hidrográficas da região, o chamado espigão mestre. Definia o trajeto da linha férrea e a da estrada mestre que a acompanhava. Outros espigões eram utilizados para a implantação de estradas de acesso.
Uma vez identificados os ribeirões e espigões, o próximo trabalho era o de subdivisão em lotes rurais de frente estreita com acesso à estrada e à água. Os variados tipos de subdivisão e agrupamento de lotes rurais nos primeiros momentos, mostram que a CTNP ainda testava as possibilidades de cada arranjo.
Várias frentes iam sendo abertas simultaneamente, sempre antecipando à criação de patrimônios. Refletia uma das estratégias da Companhia de Terras que era a fixação de grupos de imigrantes em colônias localizadas em pontos avançados estratégicos. Facilitava a administração e a ajuda mútua na comunidade.
Finalmente, na Planta Parcial de 1930 constam ainda algumas outras anotações. Conforme a tradição de projetistas, as datas de ajuste das plantas eram assinaladas. É possível ler duas datas: 5 de maio e 18 de junho de 1932. Vale confrontar com a data, 1º de maio de 1932, da planta mais antiga existente de Londrina. A planta de Londrina, provavelmente, foi inserida posteriormente na Planta Parcial de 1930. Heimtal e Londrina, esta última junto à ferrovia, são os dois únicos núcleos urbanos projetados até então. Revelam surpreendente complexidade e simbolismo no traçado e implantação.
Um mapa, muitas paisagens.
HUMBERTO YAMAKI é coordenador do Laboratório de Paisagem na Universidade Estadual de Londrina


