Deveria ser diferente, mas a realidade brasileira, com a ênfase de que a intenção não é de autodeterioração, mas de alerta, visando mudança de postura de parte do empresariado, obriga a população a cansativas sessões de ginástica a cada evento que justifique o aumento dos lucros por vias da elevação dos preços. Agora acontece com o material escolar e, de raspão, com os uniformes que milhões de crianças e adolescentes terão que vestir diariamente a partir do reinício das aulas, nos estabelecimentos que permitem a entrada de alunos nas salas de aula somente uniformizados.
Reportagem publicada na edição deste sábado no caderno Folha Economia informa o leitor que, em Curitiba, uma pesquisa feira pelo Procon entre os dias 7 e 12 avaliou 74 itens de marcas pré-definidas e sem indicação, em nove estabelecimentos da Capital do Estado. A diferença verificada nos preços chega a 433,3%, quase o dobro do constatado em São Paulo, cuja variação foi de 250% em um mesmo produto. O levantamento do Estado vizinho foi sobre 118 itens em 10 estabelecimentos.
As diferenças nos preços dos mesmo produtos, em Curitiba, foram consideradas abusivas, como no caso de uma determinada marca de fita adesiva com mesma metragem, encontrada em algumas lojas a R$ 0,45 e em outras a até R$ 2,40. Ou a simples régua plástica de 30 centímetros, de igual marca e qualidade, disponível no valor de R$ 0,11 a R$ 0,50 de uma porta a outra e apontando variação de 354,5%.
A recomendação de muita pesquisa antes da compra é válida. Mas as condições geográficas podem interferir ou tornar mais cara e penosa ainda a busca por melhores preços e condições. Numa localidade como Brasília, por exemplo, onde as diferentes atividades são distribuídas por setor, a pesquisa é facilidade. Livrarias ocupam uma mesma quadra ou microrregião dentro da cidade, o que não exige deslocamento de carro de uma loja para outra.
Este não é, com certeza, o caso da maioria das cidades do Paraná e do Brasil. A experiência com os supermercados espelha nitidamente esta condição. Normalmente, um estabelecimento trabalha num determinado dia uma quantidade limitade de produtos em promoção, enquanto seus concorrentes, adotando a mesma política, fazem o mesmo com outros cinco ou seis itens. Para economizar, o consumidor teria que visitar no mínimo cinco lojas para fechar a sua lista de compras, consumindo combustível, tempo e paciência.
Natal e Ano Novo só daqui a 11 meses e o carnaval tem pouco apelo comercial, concentrado em segmentos específicos como o de turismo. Então a bola da vez, na ótica oportunista do varejo, são os pais com filhos nas escolas. Justo numa época que as prefeituras enviam pelos Correios os carnês do Imposto Predial e Territorial Urbano e os governos estaduais emitem as faturas do IPVA para os proprietários de veículos.
É muito difícil ser consumidor e contribuinte neste País. Difícil também fugir à tentação de sonegar, mandar as crianças à escola com material adquirido de camelôs que revendem produtos trazidos do Paraguai e, enfim, dar o troco. O que só não acontece porque, na hora da compra, o consumidor tem os olhos do varejo atraindo-o, muitas vezes, para ofertas que não são ofertas. E na hora de pagar impostos, os olhos do fisco não perdoam aquele que está em dia e é honesto. Que continue assim, mas que vale uma contrapartida para quem tanto faz pelo País, isso vale à pena. Algum governo se habilita?

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