'País consegue produzir mais sem precisar derrubar florestas'
Especialista da Embrapa, Gustavo Spadotti Amaral Castro vê desmatamento controlado nos últimos anos, mas cita guerra de comunicação e prejuízo ao agronegócio caso queimadas extrapolem séries históricas
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2019
Especialista da Embrapa, Gustavo Spadotti Amaral Castro vê desmatamento controlado nos últimos anos, mas cita guerra de comunicação e prejuízo ao agronegócio caso queimadas extrapolem séries históricas
Fabio Galiotto - Grupo Folha 
O compromisso ambiental do Brasil foi colocado em xeque pela comunidade internacional nesta semana. De acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), foram registrados 75,3 mil focos de queimadas entre 1º de janeiro e a última quarta-feira (23), ou 84% a mais do que no mesmo período de 2018. Imagens do corredor de fumaça que começou há semanas sobre a Floresta Amazônica e ainda passa pela região Centro-Oeste, cobre parte da Sudeste e chega ao oceano Atlântico, geraram preocupação com a degradação de áreas protegidas e fizeram do assunto um dos mais comentados na internet em todo o mundo.

Desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e da escolha de Ricardo Salles como ministro do Meio Ambiente, o Brasil passou a ser alvo de desconfiança nacional e internacional no setor. Ameaças de deixar tratados ambientais internacionais, ataques à atuação dos próprios fiscais ambientais e contestação de dados científicos produzidos por órgãos respeitados internacionalmente, entre outras ações, fizeram com que ambientalistas acusassem o governo de incentivar queimadas ilegais.
Com interesses comerciais ou não, governantes de países como Alemanha, França, Inglaterra, Irlanda e Finlândia passaram a acusar os riscos de devastação ambiental. Na sexta-feira (23), eles demonstraram intenção de embargar as importações de produtos rurais brasileiros e bloquear a negociação do pacto comercial entre Mercosul e União Europeia. O presidente francês, Emmanuel Macron, que receberá a partir deste sábado (24) a reunião de cúpula do G7, as sete principais economias do mundo, quer colocar a questão na pauta.
Nesse cenário, lideranças do setor foram aos microfones para defender o setor. Pauta que não é inédita neste ano, tanto que cooperativas da região promoveram palestras na segunda e terça-feira (19 e 20) sobre o tema, em Maringá e Londrina, com o supervisor do Grupo de Gestão Territorial Estratégica da Embrapa Territorial, Gustavo Spadotti Amaral Castro. Na terça, ele deu entrevista sobre o tema à FOLHA, antes do aumento do tom das críticas à situação ambiental brasileira.
Como deve ser a relação do agronegócio com o ambiente?
Não existe embate entre agricultura e meio ambiente, muito pelo contrário. Verificamos cada vez mais que a aplicação do Código Florestal, que é de 2012 e diz que parte das propriedades rurais deve ser destinada à preservação e outra parte à produção, tem trazido benefícios para a agricultura brasileira. Porque melhora a imagem do nosso agricultor, como vetor de preservação do meio ambiente dentro das propriedades rurais, e também beneficia a agricultura, por meio das matas ciliares, que geram melhor aproveitamento das águas, fazem com que rios que antigamente eram intermitentes passem a ser perenes. Todas essas boas práticas agropecuárias resultam em ganho ambiental grande e isso é chamariz para a nossa agricultura. O Brasil é um dos poucos países onde realmente há áreas que agricultores destinam para a preservação do meio ambiente. Em outros países, geralmente são maciços florestais, unidades de conservação em blocos individualizados e sem a participação do agricultor. No Brasil, além de termos 30% do território protegido pela lei, ainda há áreas preservadas por agricultores.
Como é o trabalho da Embrapa Territorial?
Organizamos e padronizamos dados que são oficiais, tabulares, referentes a declarações dos estados, dados de demarcações de terras, de unidades de conservação e de florestas em áreas militares em um sistema único, de inteligência territorial e que agrega não só dados de proteção, mas também o CAR [Cadastro Ambiental Rural]. O CAR é um dos instrumentos do Código Florestal que obriga o agricultor a realizar um cadastro virtual, indicando qual é a área protegida, que é georreferenciada. Quando juntamos essa base de dados e áreas destinadas a preservação pelos agricultores, nas imagens de satélite, computamos que 66% do território brasileiro é destinado à preservação da vegetação nativa. Não quer dizer que sejam florestas. A vegetação nativa nos pampas, por exemplo, é um campo e, no Cerrado, é semi-arbustiva. Independentemente se é floresta, há 66% de vegetação nativa no Brasil e apenas 30% da área é de uso agropecuário, dos quais 7,8% para agricultura.
Nessa semana tivemos o aumento grande no número de queimadas no País, de mais de 80% em relação ao ano passado, e que chegou a fazer com que São Paulo anoitecesse no meio da tarde. Qual o impacto disso no agronegócio?
Não sou climatologista, mas estamos no pico da seca do Brasil e é época em que tradicionalmente ocorrem queimadas, que vêm diminuindo de forma drástica nos últimos anos. Principalmente porque áreas que são agricultáveis e estão dentro de um sistema de produção agropecuário, produtivas ou destinadas a preservação, estão de posse de agricultores. Toda as vezes que a queimam, a responsabilidade civil e criminal recai sobre eles. Todas as áreas particulares que entram em processo de degradação por incêndios são passíveis de recuperação pelos produtores. As queimadas de grandes extensões são em parques nacionais, áreas isoladas, onde o combate ao fogo é muito mais complexo. Isso tem impacto para a imagem do Brasil se sair do controle e extrapolar picos de séries históricas nacionais, o que não é o caso hoje [terça-feira, 20]. Temos queimadas em todos os anos e é possível fazer o controle com estratégia. Existem brigadas anti-incêndios do governo, o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade] atua nessa área, o próprio Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], órgãos que têm diversas estratégias de controle.
Como enxerga a comunicação feita pelo governo para a relação entre meio ambiente e agronegócio, ou sobre a possibilidade de mineração e de ampliação da área agriculturável em áreas de florestas nativas?
Na última segunda-feira (19), [o jornalista] William Waack falou que o Brasil está perdendo a guerra da comunicação. Praticamente todos os indicadores de agricultura e pecuária no Brasil são mais positivos comparados ao restante do mundo. Temos de evidenciar o papel dessas tecnologias agropecuárias que temos aplicadas no campo, mostrando o quanto fixam carbono e não emitem, o quanto preservam o meio ambiente e não degradam. Pegam exceções no agronegócio brasileiro para transformar em uma regra. Muitas vezes os parceiros comerciais querem poder de barganha sobre produtos brasileiros e usam isso como estratégia para depreciar o produto brasileiro, quando, na verdade, deveríamos nos comunicar como um dos grandes dentro do contexto da preservação.
Temos visto muitas imagens da Amazônia com área desmatada, árvores cortadas, esse número grande de queimadas. Existe alguma chance de mudar a forma de atuação por lá?
Tem de separar o joio do trigo. Tem áreas de desmatamento, que hoje está em torno de 7 mil a 8 mil quilômetros quadrados por ano. Isso é 0,1% de desmatamento em relação ao total. Tem de entender o que é desmatamento legal e ilegal. O Brasil tem legislação, tem acordos internacionais e tem auditoria que passa por crivo internacional. Isso leva à realidade do que é desmatamento dentro de processos legais e do que é predatório. Pela nossa experiência, acreditamos que o desmatamento ilegal ocorre em áreas fora do contexto do agronegócio brasileiro. Os agricultores prezam cada vez mais por práticas e processos agropecuários que primam pelo equilíbrio entre produzir e preservar, até porque temos mecanismos legais na Amazônia que impedem que a produção de soja e de gado seja oriunda de áreas recentemente desmatadas, o que conteve o desmatamento nessa região. Sobre outros fins, não tenho como opinar.
Como funcionário da Embrapa, que tipo de mensagem o governo passa ao contestar dados científicos do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], que levaram à demissão do chefe do órgão, e que apontavam sistematicamente o aumento de áreas desmatadas neste ano? Não mostra que estamos brigando com a realidade?
Temos de olhar os dados em contexto global e mostrar a tendência em que ocorrem. O desmatamento no Brasil chegou a picos de mais de 25 mil km² por ano e nos últimos 10 a 15 anos tem se mantido sempre abaixo dos 10 mil km² ao ano. Está dentro dos protocolos que o Brasil assinou no Acordo de Paris, tido como aceitável dentro dos padrões internacionais. Esse é o foco. Tentar coibir cada vez mais o desmatamento ilegal de forma a melhorar os indicadores.
Qual a sua avaliação sobre essa possibilidade de abrir as reservas indígenas, tanto para arrendamento rural quanto para mineração?
Não tenho opinião formada porque não temos trabalhos nessas áreas.
Gostaria que falasse do impacto ambiental, porque as reservas indígenas são nativas e preservadas. Qual o impacto de o governo brasileiro abrir a possibilidade de arrendamento para a produção rural?
Entendo de agricultura e não posso falar sobre mineração. Não vejo como mexer. O indígena é um cidadão brasileiro, que tem características especiais. As áreas indígenas, isso posso afirmar, são 600, áreas com 14% do Brasil. São áreas demarcadas e as populações indígenas têm direito ao usufruto dessas áreas. Agora, limitar o quanto pode e o quanto não pode fazer para determinada área agrícola, ou caça e coleta, não saberia dizer se seria o ideal ou não.
Quais são os desafios adiante na relação do agronegócio com o ambiente no Brasil?
Temos de seguir em busca, sempre, de tecnologias que poupem terra. Se tivéssemos hoje a mesma produtividade das décadas de 70 e 80, precisaríamos ter mais 128 milhões de hectares [ha] dentro do processo produtivo para ter a mesma quantidade de alimentos. Produzimos hoje em mais ou menos 75 milhões de ha, então seriam 130% a mais. É tecnologia, que começou a ser pesquisada muitas décadas atrás, quando houve as primeiras experiências de mandar pesquisadores para o exterior, para trazer práticas de países de clima temperado. Se não fossem feitas adaptações da produção para as condições de clima tropical, estaríamos fadados ao insucesso. Conseguimos transformar essas tecnologias para nosso clima e solo e foi o grande salto, com o papel da Embrapa, do Iapar [Instituto Agronômico Do Paraná], das instituições de pesquisa, das universidades, na geração de conhecimento e no papel fundamental da extensão rural para levar esse conhecimento aos agricultores para que fosse aplicado. É esse o caso de sucesso que faz com que o País produza até três safras agrícola ao ano, com níveis de produtividade equiparados aos principais produtores do mundo. Somos referência na produção de milho, soja, carnes, algodão, feijão, arroz, cana de açúcar, laranja e de diversos produtos agropecuários, em comparação com países que despontam com um produto ou dois. Somos protagonistas não apenas no comércio internacional, como na alimentação das populações do mundo e isso só foi conseguido com tecnologia.


