Saía de Zumaia triste, por despedir-me de um amigo, por dizer adeus a José Mari, por receber uma lição de dignidade por parte de sua família e das pessoas de seu povoado, lideradas pelo prefeito. A ETA assassinando de novo socialistas, populares, nacionalistas bascos. Toda a sociedade basca, todos os que não pensam como eles, são alvo da ETA.
Sendo assim, o que fazer? Como reagir? Qual deve ser o comportamento de todos os demais? Um caminho está claro: os demais, a imensa maioria da sociedade basca, os partidos políticos, o lehendakari (presidente) do governo basco, devemos, de um ponto de vista ético e moral, responder a essa barbárie com um compromisso com a democracia sem fissuras, condenar a violência sem fissuras, nos manifestarmos contra a ETA sem fissuras, levar nossa solidariedade às famílias e às famílias políticas ou profissionais sem fissuras.
Devemos ficar aqui e admitir resignados que nada podemos fazer até que aquele que mata se convença de que deve deixar de fazê-lo, que devemos conviver com a morte? Ou, pelo contrário, devemos pensar que já a partir de amanhã teremos de fazer algo mais?
Condenar a ETA e seus atentados, defender o direito à vida, à liberdade, à democracia, é absolutamente necessário. Porém, nos contentaremos apenas com isso, sabendo que é necessário mas não suficiente para alcançar a paz e a normalização política na sociedade basca? Por que não dialogamos entre nós para resolver nossas diferenças políticas? Não seria este um argumento importante para que a ETA deixasse de enganar uma parte da sociedade basca? Porque com a ETA não temos – ninguém – diferenças políticas. As diferenças políticas existem entre os partidos políticos, não com aqueles que pegam em armas. Com a ETA nossa diferença – a de todos – é prévia, é ética e moral, é a de respeitar ou não o direito à vida.
A ETA é quem mata e tem por isso não a máxima, mas a única responsabilidade. Mas não podemos viver assim. O problema não são só uns 300 loucos pegando em armas e um grupo minoritário de intolerantes apoiando-os; se fosse desta forma, a violência teria acabado há tempo. A questão é que a ETA, queiramos ou não, tem um apoio social que vai além. Um apoio social sem o qual não subsistiria e que em boa parte, inclusive à margem de manter suas próprias posições políticas, nos últimos tempos não entende por que a ETA rompeu a trégua, por que voltou a matar.
Então, o que podemos fazer além de defender a ética democrática, para que a falta de razão, a barbárie – que não tem nem nunca teve sentido para nós – também deixe de ter sentido para muita gente ‘‘desse mundo’’ que, embora às vezes nos pareça mentira, sem dúvida tem coração como nós e sabe que a violência é um caminho que leva a lugar nenhum?
Cobrimos uma etapa na qual conseguimos o objetivo, temos de abrir uma nova etapa, é preciso tentar uma e outra vez, há que se aprender com os erros cometidos. A chave não é repartir culpas sobre como uns e outros fizemos as coisas no passado – Deus santo! – nem tentar ‘‘dirigir’’ a opinião pública com manipulações escandalosas, nem solicitar que os que não pensam como você mudem de idéias ou, inclusive, que as organizações mudem de pessoas. Somos nós, que hoje temos a responsabilidade nas instituições e nos partidos, cada um com nossas legítimas idéias, que devemos resolver este problema.
Não estamos num momento de ‘‘jogar fora qualquer ajuda’’. Porque, se os que ‘‘estamos hoje’’ não aceitamos as idéias legítimas dos ‘‘outros’’, se nem mesmo reconhecemos os líderes dos partidos diferentes do nosso como interlocutores, o que deveremos fazer é – em lugar de pedir que os demais mudem de idéias e de pessoas – caminharmos ‘‘todos’’ para casa reconhecendo desta maneira, publicamente, nossa incapacidade. Em definitivo, que não estamos à altura das circunstâncias.
Fiz uma revisão das coisas ‘‘a fazer’’ e das coisas ‘‘a não fazer’’. Estes caminhos resultarão, sem dúvida, insuficientes para alcançar a paz e a normalização política, mas são, como as estradas de aproximação para escalar uma montanha. Não nos colocam diretamente no cume, mas, sem superá-las previamente é impossível chegar a ele. Nós também temos de traçar caminhos de aproximação para chegar algum dia ao cume. Para resolver os problemas nesta vida é preciso incorporar uma dinâmica de diálogo e negociação permanente tal como ocorre na empresa, também na política. Há que se superar o medo do fracasso, é preciso arriscar, tentar uma e outra vez. Eu jamais critico quem tenta com boa intenção.
Temos de imediatamente abrir espaços de diálogo entre todos os que respeitam o direito à vida e rechaçar todo tipo de violência, com o objetivo de negociar fórmulas que – sempre respeitando a vontade de sociedade basca expressa livremente – nos permitam canalizar legítimas diferenças políticas. Um espaço político e social baseado em um contundente ‘‘não à violência’’ e um ‘‘sim ao diálogo’’. Isto é o que penso e é exatamente o que há algumas semanas apresentei, como lehendakari, aos partidos políticos bascos.
Para isto é preciso reconhecer, desde a defesa prévia do direito à vida, em primeiro lugar, e que temos entre nós diferenças políticas que não podemos evitar, nem esquecer, nem esconder atrás da violência. Em segundo lugar, devemos admitir que todos nossos projetos políticos são legítimos e que têm de ter o mesmo direito de serem defendidos e, em sua circunstância, admitidos pela sociedade basca. Em terceiro lugar, é preciso deixar de confundir interessadamente a violência praticada por uns poucos com as idéias nacionalistas bascas legítimas e democraticamente expressas. Por fim, é preciso respeitar mais se queremos conviver juntos. É possível conviver se os laços de afetividade se rompem? Da falta de respeito nasce a desqualificação, o insulto e o progressivo afastamento que leva à quebra da convivência.
Nesta vida não há elixir mágico. Apenas expectativas para alcançar metas, formação e constância para alcançá-las e um método: com discrição, dialogar e dialogar ‘‘até o amanhecer do dia seguinte’’.
- JUAN JOSÉ IBARRETXE, membro do moderado Partido Nacionalista Basco (PNV), desde 1998 é o lehendakari (presidente) do governo da Comunidade Autônoma Basca (IPS)

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