'Padre Roque é ex-padre'
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Desde que assumiu interinamente a Prefeitura de Londrina, José Roque Neto, o Padre Roque, declarou diversas vezes que não é ex-padre. Diante das dúvidas da população quanto à situação religiosa de Padre Roque e outras questões, o arcebispo dom Orlando Brandes, à frente da Arquidiocese de Londrina desde julho de 2006, esclarece qual o posicionamento da Igreja Católica.
Como a Igreja e o senhor avaliam a participação de religiosos na política?
O pensamento dos papas, o Magistério Oficial da Igreja e as orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Episcopado do Paraná são que os padres não assumam política partidária. Não é papel da Igreja assumir funções políticas ou cargos políticos. O papel da Igreja é de salvação, do reino, da libertação; é mais amplo que a política. Agora, se em algumas circunstâncias, a pessoa mais indicada for religiosa, seja por sua cultura, por sua ética, a Igreja, num regime de exceção, concede essa possibilidade. Mas o normal é não assumir cargos políticos. Outra coisa é o padre ser um educador político, educar os conceitos para a política, para o valor do voto, para a cidadania. Esse papel de política com a justiça, social e bem comum, a Igreja não pode se omitir.
Como o senhor avalia o comportamento do prefeito interino, que se intitula padre?
Estamos numa situação difícil de resolver. Primeiro porque agora esse nome já está cunhado. Não dá para tirar mais, ele se tornou cultural. Mas não é o nome verdadeiro. O que temos que distinguir é que o chamado Padre Roque, para a Igreja, é um ex-padre. É um cidadão independente em suas decisões. A Igreja não tem nenhum papel fiscalizador nesse caso. Esse fenômeno já aconteceu quando ele se candidatou para vereador e houve contestações. Foi quando ele me disse assim: ''Se eu colocar José Roque Neto, ninguém vai saber quem é. Eu sou conhecido em Londrina por esse apelido, por esse nome, essa realidade.'' Ele disse e não está mentindo. O nome é de guerra, um apelido, uma questão cultural.
Qual a posição atual de Padre Roque na Igreja Católica? Quais atribuições ainda são pertinentes a ele?
Ele não tem mais nenhum vínculo jurídico com a Igreja Católica. Ele é padre em função da ordenação, mas não exerce mais o Ministério Sacerdotal. Nessa condição ele é um leigo independente. É apenas um cristão que pode ajudar nas paróquias, com o canto, por exemplo, já que tem o dom da música, ou ser convidado a dar palestras. Mas ele vai como cidadão, como todos os leigos. Como também possui o dom da palavra e tem todos os estudos, o campo da evangelização é aberto. Mas são os fiéis, as comunidades que o convidam. Agora, celebrar missas ou batismo, ele não pode, já que não exerce mais o Ministério Sacerdotal.
Então ele está equivocadamente usando a titulação de padre?
Ele está usando por causa do conhecimento dele a partir desse nome.
Mas quando os jornalistas se referem a ele como ex-padre, ele não aceita. Como o senhor avalia esse comportamento?
Desconheço se ele não aceita ser chamado de ex-padre. Não é a primeira vez que ouço isso, mas não me consta que ele se oponha ser chamado de ex-padre. Até porque essa é a realidade dele.
O senhor acredita que ele tenha se aproveitado dessa titulação para angariar mais votos?
O que algumas pessoas interpretam é que o nome padre o teria ajudado a ganhar votos. Mas são interpretações. Ele me disse que teve de usar o nome porque não tinha outro. Se colocasse outro nome, ninguém iria votar, já que é conhecido por padre. Diante de mim, ele mostrou honestidade. Que ele não teria outra maneira de dizer que José Roque Neto era o Padre Roque.
Só para deixarmos claro, o senhor não condena o fato dele usar o nome?
Não, porque foi o único jeito que ele encontrou.


