Pacto de civismo
A redemocratização da Espanha, ocorrida em 1975, e suas primeiras eleições livres, em 1977, depois de 41 anos sem exercício do voto direto e soberano, foram um dos mais significativos fatos históricos do país ibérico em toda a sua trajetória. No entanto, essa conquista somente ganhou conteúdo em termos de resultados para o desenvolvimento espanhol a partir do antológico Pacto de Moncloa, em 1978, quando partidos políticos e os setores representativos da sociedade, sublimando interesses pessoais, corporativos e eleitorais, estabeleceram as bases da redenção nacional.
A redemocratização brasileira completa 21 anos neste 2001, mas não se pode afirmar que tenha atingido a maturidade plena. Felizmente, parece sólida enquanto instituição, mas continua frágil no sentido de transformar a liberdade política em ferramenta de desenvolvimento. E democracia também é progresso, crescimento econômico, igualdade de oportunidades e justiça social. Sintomas de subdesenvolvimento ainda atingem vastas parcelas geográficas e demográficas do País. Como na Espanha de 1978, precisamos quebrar paradigmas históricos. O pacto social, expressão tão desgastada pelo mau uso que dela se fez em nosso país, ainda é uma demanda histórica a ser suprida pela nação brasileira.
Mais do que nunca, é necessário incluir todos os brasileiros nas prerrogativas plenas da cidadania, garantindo-lhes os direitos humanos de trabalhar, alimentar-se, vestir-se, morar adequadamente, ter acesso à cultura, à saúde e ao ensino. Portanto, impõe-se a democratização das oportunidades. Por isso, é necessário que todos se mobilizem em torno da meta de promover a melhoria da qualidade de vida dos excluídos, não por meio do mero paternalismo e da filantropia reconfortante, mas por meio do crescimento econômico, da geração de empregos, inclusive para mão-de-obra não-especializada, da educação, da oferta de assistência médica mais digna e da construção de um país mais próspero. A sociedade não deve ficar omissa nessa questão, sob a cômoda e anacrônica justificativa de que o social é dever apenas do Estado. Este é o pacto do desenvolvimento, da consciência cívica e do compromisso prioritário de toda uma nação na era que se inicia.
No caso da indústria gráfica brasileira, essa responsabilidade é encarada de maneira muito séria, em razão de sua ligação intrínseca com a produção de livros, cadernos, jornais, revistas e todos os materiais impressos que contêm informações. Além disso, o setor está diretamente ligado à rotina da população, ou seja, ao exercício de todos os direitos inerentes à cidadania na sociedade contemporânea. Livros, jornais, revistas, cadernos, embalagens, talões de cheques, cartões de crédito, bulas de remédios, manuais dos automóveis e computadores, notas fiscais e até a moeda nacional constituem-se em produtos da indústria gráfica. É preciso estender o acesso aos direitos expressos nesses produtos a todos os brasileiros.
Por essa razão, a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) tem participado de forma crescente de iniciativas voltadas à democratização dos benefícios da economia e à valorização da vida. Desde a criação, em 1995, do Prêmio Direitos Humanos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, a entidade tem sido sua patrocinadora, contribuindo para estimular os que trabalham por um Brasil melhor.
Na edição 2000 do Prêmio, entregue neste início de 2001 pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, a Abigraf teve a honra de homenagear e premiar a Associação Minha Casa, Minha Rua, que atende pessoas que perderam seus empregos, suas casas, a cidadania e, portanto, os direitos humanos. A entidade, uma das vencedoras do Prêmio na Categoria Organizações Não-Governamentais, é um exemplo do quanto a sociedade civil pode fazer para a construção de um país melhor.
- MAX SCHRAPPE é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), do Conselho Regional do Senai-SP e vice-presidente da Fiesp e da Confederação Latino-Americana da Indústria Gráfica (Conlatingraf)





