Vistos da perspectiva histórica, muitos fatos políticos e econômicos se parecem entre si e se repetem com frequência, embora, evidentemente, a história não se repita. A rigor, o que se repete é a insensatez humana, ao avaliar aqueles fatos como se fossem irrelevantes e não contivessem lição alguma.
Agora mesmo estamos vendo, além de empresários, ministros, o candidato presidencial governista e até seu padrinho político repetirem, a cada instante, que, se esse afilhado não for eleito em outubro, para administrar o espólio de sua administração, o Brasil entra no turbilhão do caos.
Assim, se os brasileiros não elegerem José Serra, para preservar as linhas gerais da política econômica de Fernando Henrique Cardoso, estaremos ferrados. Tais linhas são conhecidas: seguir as lições do FMI, atender às exigências dos credores internacionais e continuar vendendo as estatais que nos restam.
Um dos líderes dessa campanha de terrorismo é o ministro Pedro Malan. Mas seu alvo principal, Lula, do PT, agora é mais difícil de ser atingido, por ter em sua chapa o mineiro José Alencar, empresário insuspeito e respeitável senador.
Vamos, então, à breve história dos primeiros governos civis da República, três paulistas. Prudente de Moraes tomou emprestadas milhares de esterlinas do banqueiro Lionel Rothschild, a pretexto de sanear a economia e criar empregos no país. Fracassou. Tais dívidas sobraram para Campos Sales, seu sucessor, que firmou o vexatório compromisso de não falhar no pagamento dos juros e serviços. Nossa frágil economia fragilizou-se ainda mais, ao peso de extorsivas obrigações.
Ao fim do governo, apoiado só pela mídia subsidiada e o dócil Congresso, a miséria crescera. Não superara a de hoje, pois éramos 23 milhões de brasileiros, número de nossos atuais miseráveis. No trem de volta a São Paulo, atiraram-lhe ovos podres pelo caminho. Antes da eleição do sucessor, porém, Rothschild elogiou Campos, que ‘‘restabelecera o crédito do país e aumentara a felicidade geral (?!) da nação’’. ‘‘Desejamos ardentemente que vosso sucessor adira à sábia política que com tanto êxito iniciastes.’’ Rodrigues Alves elegeu-se – num processo eleitoral de corrupção e pressões políticas, como o de agora, na convenção do PMDB – e aderiu.
E Rothschild realizou em 1902 o sonho de Malan, para 2002, rejeitado hoje por 70% dos brasileiros: a preservação da nova ‘‘sábia política’’, a de FHC. Que, àquela época, teve confete do banqueiro, que a fruía, e ovo podre do povo, que a sofria.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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