OUVIR, PARA AJUDAR
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sábado, 12 de abril de 2003
Luka MoraisReportagem Local 
É preciso esvaziar o sentimento de angústia, de desespero, porque a pessoa muitas vezes parece uma panela de pressão prestes a explodir. Essa é a preocupação dos voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que no ano passado recebeu 1 milhão de chamadas nos 52 postos de atendimento espalhados pelo Brasil. Em Londrina, o CVV recebe uma média de mil ligações por mês. ''Parece simples, pouco, mas um desabafo tem muito valor'', afirma a coordenadora do serviço de divulgação do CVV, Vera Lucia Maria Carlos.
Tia eu queria viajar com meu pai mas minha mãe não deixou. Eu estou com muita raiva da minha mãe. Tem uma coisa ruim dentro de mim.
Sabe, minha mãe não me deixa sair de casa. Minhas amigas têm namorado, elas saem mas minha mãe me proíbe. Não sei o que vou fazer, mas isso não pode continuar desse jeito.
Eu estou sentindo uma dor imensa, acho que não vou suportar a dor de passar um Natal sem o meu companheiro de tantos anos (a voz trêmula e chorosa da mulher de 65 anos do outro lado da linha recebe o incentivo do filho para contar os detalhes).
Crianças, adolescentes e idosos. O CVV não tem público distinto. Mas atende pessoas com necessidades semelhantes. Diariamente recebe ligações telefônicas de quem precisam esvaziar o sentimento de angústia que faz o peito sentir uma dor quase insuportável. É preciso saber ouvir e só quem conhece o valor de um desabafo pode ajudar quem entra em desespero e que encontra no anonimato de uma ligação telefônica a válvula para dar vazão ao sentimento de opressão e de tristeza.
Os voluntários do CVV dominam técnicas simples mas que são extremamente importantes para que a voz triste e deprimida encontre estímulo para continuar o desabafo. ''Eu procuro fazer com que ela continue falando e colocando para fora sentimento de tristeza. Ao falar ela se ouve, se escuta através da outra pessoa'', comenta a voluntária Vera.
Entre as atitudes do saber ouvir a aceitação é fator fundamental quando se pretende manter a conversa. Vera lembra que muitas mães perdem a chance de conhecer melhor seus filhos ao recriminar e julgar seus desejos. ''Um exemplo comum é a filha que pede um CD que a mãe odeia e logo de cara a mãe fala que é horrível e que não vai comprá-lo. Qual será a atitude da filha? Ela vai se distanciar. A mãe não entende que ela quer porque está na moda. E que poderia perguntar porque ela gosta desse tipo de música, o que isso significa para ela. Enfim, faria de um pedido um motivo para um diálogo e não de um afastamento ou de uma briga'', exemplifica Vera.
Aproximar-se de quem precisa da ajuda é fundamental e isso, conforme a voluntária do CVV, é possível através do respeito, do aceitar as diferenças e de respeitá-las. A partir daí surge a atitude da compreensão. ''O que é compreender? É eu entender que o outro tem as razões dele de querer o que quer. Se ele quer assistir tal filme e gosta, tem suas razões, mesmo que eu não goste nem aceite o filme. Se a pessoa fala para mim que fez um aborto e eu não tiver atitude de compreensão não vou sequer conseguir iniciar a conversa'', exemplifica a voluntária.
''Vou dizer nossa! Mas isso é pecado ou você vai ter que rezar muito! Ela já se sente horrível pelo que fez. Precisa de reciprocidade, de confiança, saber que o outro não vai recriminá-la''. O que está feito é passado e não vai ser mudado. O presente é outra história.
O CVV existe desde 1962 e tem mais de 2 mil voluntários em todo Brasil. É uma associação sem fins políticos, religiosos ou financeiros. O telefone do CVV em Londrina é (0xx43) 3356-4111.


