Outros Carnavais
Adianta escrever sobre política durante o Carnaval? Arriscar palpites sobre economia? Discorrer sobre a corrupção, a vingança de ACM ou a demissão de ministros? Acho que não. Ninguém prestaria atenção e, para falar a verdade, nem sei onde foram parar as pessoas, potenciais leitores que ou se recolheram em suas casas para preparar a fantasia ou se foram para algum lugar ignorado e desconhecido.
Percebo em minha cidade uma quietude de ruas vazias, uns ares de feriado como se todos tivessem se evadido. Para onde? Certamente para as praias desse meu Brasil litorâneo de mares de azul intenso, onde se mergulha como quê na vida por entre os esplendores do sol dos trópicos.
Afora praias, o povo migra para os grandes centros carnavalescos. Rio de Janeiro com seu Carnaval para gringo ver, show business e mulheres esculpidas e despidas desfilando no Sambódromo para o delírio da platéia. Salvador com trios elétricos e multidões a se locomover ora freneticamente ora tão lentamente que o ritmo lembra mais o das procissões. Recife e Olinda, onde ainda existe o autêntico Carnaval de rua. No mais, em outros Estados que tentam imitar o Carnaval do Rio, existem os bailes nos clubes onde é tocado rock e pagode. Mesmo na portentosa capital de São Paulo, se há belos desfiles sente-se mais a marca da imigração, sobretudo a italiana. Sampa é Adoniran Barbosa e não batuque. No Sul, fica o grande esforço em vão para sambar. Pesam as tradições européias.
Mas o fato é que não se faz mais bailes nem fantasias como antigamente. O Carnaval de agora me passa a idéia de alegria forçada, de praxe social, algo assim como ter de ir a missa e fazer cara de contrito. E por mais belos que sejam os desfiles das escolas no Rio de Janeiro, que vejo pela televisão, são repetitivos como os programas do Faustão, da Xuxa, do Sílvio Santos e de outros mais que se inserem na programação de entretenimento de massas e se prolongam à exaustão. Diante dos desfiles televisivos para inglês ver, ou durmo bem acomodada no meu sofá ou procuro um bom livro para ler ao som de um CD de Tom Jobim ou mesmo de uma sinfonia de Bethoveen.
Provavelmente alguém poderá dizer que estou sendo politicamente incorreta ao externar esses pensamentos. Isso já me aconteceu quando disse certa vez que não gosto de filmes nacionais. Por causa dessa heresia fui interpelada e questionada como se tivesse cometido crime de lesa-majestade contra a Pátria. A coisa piorou quando confessei que o futebol não me agrada, e que entendo que como o Carnaval, este esporte está em franca decadência no Brasil.
Com essa opinião particular afrontei alguns ufanistas. Mas afinal, não seria o Brasil mais que futebol e Carnaval, por mais interessantes que essas manifestações populares possam ainda ser? Seremos tão pobres em valores que não temos algo mais para nos identificarmos e nos orgulharmos como brasileiros?
Entendo pátria como ninho, abrigo, família ampliada, vastidões sem conta, um bem-querer plantado num território determinado geograficamente. Quando dela nos afastamos a separação contém a dor de raízes arrancadas. E o retorno ao seu aconchego significa o reencontro com as coisas mais queridas, mais nossas, mais íntimas.
Pátria pode ser uma paisagem, um jeito de ser, um modo de conversar na inteligível linguagem que se aprendeu desde a mais tenra infância. Pátria é Brasil, mãe de longa cabeleira verde feita de matas perfumadas, de áureas riquezas abrigadas em suas entranhas, de profundos olhos azuis marítimos a perscrutar o porvir de seus filhos. E nos seus longos caminhos ninguém se perde porque se pisa sempre o inconfundível solo pátrio.
Estado não é pátria, é pai. Estado também é povo e território perfazendo a Nação, mas sobretudo é governo. No Estado estão as leis necessárias. Na Pátria ficam as imprescindíveis leis justas. Por isso ele é pai e ela é mãe. A mãe gentil que elogiamos quando tudo vai bem mas que frequentemente criticamos quando ela de nós mais precisa.
Às vezes oscilamos do patriotismo ao ufanismo onde é gestado o nacionalismo exacerbado e bem latino-americano, que tem sido tão nefasto aos nossos povos. É o nacionalismo ufanista que nos torna incapazes de enxergar nossas próprias falhas. Através dele queremos resguardar o País, não permitindo que se vejam suas imperfeições que na verdade são as nossas. Como afirmou Mario Vargas Llosa: Um dos nossos piores defeitos é acreditar que importamos todas as nossas misérias do estrangeiro, que outros são sempre responsáveis por nossos problemas. De fato, culpamos desde Colombo e Cabral aos norte-americanos e a globalização por nossas fraquezas e mazelas. Só esquecemos de perguntar o que fizemos a nós mesmos.
Mas voltemos ao Carnaval, cuja origem se prende ao mundo cristão medieval onde havia um período de festas profanas que se iniciavam, geralmente no Dia de Reis (Epifania) e se estendia até Quarta-Feira de Cinzas, dia em que começavam os jejuns quaresmais. Segundo o Aurélio, o Carnaval consistia em manifestações sincréticas oriundas de ritos e costumes pagãos, como as festas dionisíacas, as saturnais, as lupercais, e se caracterizavam pela alegria desabrida, pela inibição da repressão e da censura, pela liberdade de atitudes críticas e eróticas.
Apesar da descaracterização das tradições do Carnaval brasileiro, não há dúvida que essa definição se lhe encaixa como uma luva. Vargas Llosa, que veio passar o Carnaval no Brasil no ano passado, ficou deslumbrado com nossa alegria e com o erotismo circundante. Segundo o escritor, enquanto o Brasil tiver Carnaval não fará nenhuma revolução. Concordo. Mas também não nos falta o lado da violência que inclusive infesta as penitenciárias. Mas esse já é assunto para outro artigo. Por enquanto, volto às minhas leituras ao som de Tom Jobim, ou de Bethoveen, ou de Mozart.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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