Outro estarrecedor escândalo com obras públicas
A nação, já tanto violentada pelos escândalos de corrupção envolvendo dinheiro público, fica estarrecida ante mais essa roubalheira agora descoberta e que resultou - pelo menos um alento - na prisão de 46 influentes figurões da vida pública e empresários. Todos envolvidos com fraudes em licitações de obras do Governo. Por ora, o montante já mapeado é de R$ 100 milhões, em apenas um ano, mas o indicativo é que o volume seja maior. Tudo isto em prejuízo dos contribuintes, que afinal são os que pagam a conta desses desmandos.
Numa surpreendente e magistral ação a Polícia Federal pôs as algemas em membros de destacados clãs regionais, a partir da Bahia e se estendendo a Sergipe, Alagoas, Maranhão, Piauí, Pernambuco, Distrito Federal, Mato Grosso, Goiás e São Paulo. A máfia das obras se valia de recursos públicos usando a construtora Gautama, de Salvador, dissidente da empreiteira OAS, citada no passado em vários escândalos do gênero. Foram desviados recursos dos Ministérios de Minas e Energia, Integração Nacional, Cidades, Planejamento e do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes para obras volumosas como estradas, pontes, saneamento e energia elétrica.
Autoridades recebiam grandes somas em dinheiro para facilitar as coisas, e entre os presos estão nomes conhecidos da administração pública (estampados nas edições de ontem de todos os jornais) e mais 17 executivos da construtora Gautama, incluindo o dono dela, Zuleido Soares Veras. Depois de denúncias e investigações, a ordem de prisão partiu da juíza Eliana Calmon de Sá, do Superior Tribunal de Justiça. Não se sabe por quanto tempo eles ficarão presos - porque peixes grandes se livram facilmente das malhas - mas a caçada foi das maiores já realizadas. Essa quadrilha já tinha um esquema pronto para desviar recursos também do Programa de Crescimento Econômico, o PAC, nem aprovado ainda.
Mal um escândalo é revelado e um novo surge, sempre envolvendo gente da esfera governamental e, naturalmente, dinheiro público. Mas se o impacto dessas notícias causa grande revolta do povo, a indignação maior ocorre na continuidade, com o relaxamento das prisões e os valores dessas roubalheiras nunca devolvidos. Assim tem sido, e essa tradição de impunidade favorece que casos do gênero se repitam. Não será surpresa para os brasileiros se já a partir de hoje se leia nos jornais que fulano e beltrano foram libertados, anulando a decisão corajosa da juíza e a eficiência de uma operação como essa dos policiais federais.





