Outra visão da crise (Editorial)
A idéia de um mundo global, todo inter-relacionado e no qual o que ocorre do outro lado do globo acaba provocando cataclismos até nas antípodas, está cada vez mais difundida, principalmente diante dos últimos terremotos econômicos ocorridos em bolsas da Ásia. Já houve outros casos: crise no México que, de repente, se espraiou, atingindo Argentina e Brasil. De repente, o mundo já não parece tão grande e as pessoas começam a criar um novo tipo de pavor, o que se poderia chamar medo global. Se a bolsa cair em Hong Kong, vai acontecer o mesmo no Brasil?, pergunta o anunciador de um comercial sobre bancos, na TV. Se alguém espirra na Indonésia, o brasileiro pega gripe?, pergunta outro. E, como por um tipo de magia dos tempos modernos, os países parecem se converter em simples bola no jogo de bilhar: depois da Indonésia, da Tailândia, da Rússia, será o Brasil a bola da vez?
O mais grave disto, ao menos do ponto de vista do Brasil, é que a repetição incessante da idéia acaba produzindo efeitos. Se a imprensa, principalmente a TV, insiste na tese segundo a qual a crise é inevitável, seu caminho é irreversível, então, aparentemente, não há o que fazer, a não ser se preparar para o pior. Todavia, uma análise um pouco mais acurada desmente isto. O que está faltando, em princípio, é a percepção de que boa parte desta crise global tem uma grande conotação especulativa. Sem dúvida, há sérios problemas rondando a Ásia e a Europa ex-comunista. E nisto não deve haver surpresas. A derrocada do comunismo deixou ver uma realidade que o totalitarismo conseguiu esconder: todo aquele enorme desenvolvimento dos países do Leste Europeu tinha base falsa, esboroou ao primeiro embate. Já o que ocorreu na Ásia também deve ser visto sob uma ótica mais objetiva: foi mais ou menos miraculosa a evolução asiática. Repentinamente, surgiram os tigres asiáticos, verdadeiras potências que, há pouco tempo, eram mais pobres que os países latinos, por exemplo. Ali, também, ao que se constata, a base era falsa.
A partir daí, existe uma outra visão. É possível indicar as duas faces reais da crise: a falta de base dos países que, aparentemente sólidos, começam a explodir, e a especulação gananciosa, esta de fato sem fronteiras e sem limites e que transformou as bolsas em verdadeiros cassinos globais onde o que menos importa é o valor das coisas, prevalecendo o interesse escuso a provocar derrocadas que prejudicam países mas enriquecem os atuais piratas monetários da era cibernética. Esta realidade, por seu turno, leva inevitavelmente à adoção de uma postura diferente, objetiva, capaz de produzir soluções, sem a síndrome do boliche em que uma bola após a outra há de cair inevitavelmente, pela ação especulativa de alguns.
Neste contexto é possível entender a declaração do ministro da Fazenda, Pedro Malan, que se disse convencido de que a atual crise econômica asiática pode resultar em benefício à América Latina. Segundo ele, a América Latina é uma região com vantagens neste caso: Não há testes nucleares e não existem conflitos fronteiriços ou étnicos. Em declarações publicadas ontem, Malan assinalou: É uma região formada por democracias consolidadas ou em processo de consolidação.
Considerando que o momento é de incerteza, o ministro brasileiro, ainda assim, deixou clara uma visão menos dantesca e, seguramente, mais conforme com a realidade. A crise que existe, é real, mas não precisa, necessariamente, levar o Brasil e a América Latina para o buraco em que se encontram as antigas economias aparentemente sólidas da Ásia ou da antiga Europa comunista.





