Outra radiografia do MST - Frei Ildo Perondi
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 1998
Frei Ildo Perondi 
No dia 18 de setembro, neste espaço, Marcos Heidy Guskuma, estudante de Odontologia de Londrina, fez uma radiografia do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Gostaria de comentar alguns pontos. Movimentos populares e sociais fazem parte de qualquer democracia. Grupos sociais, que se sentem marginalizados e esquecidos pelos governos, devem lutar por seus direitos. Que eu saiba, é assim desde o tempo da Bíblia, com Moisés enfrentando o poder do faraó, para libertar o povo e ir em busca de uma terra (Livro do Êxodo). Na sua caminhada os movimentos, democraticamente, eles vão descobrindo seu jeito e forma de agir. Assim também, a forma como o MST se organiza e encaminha as suas reivindicações deve ser uma decisão dos seu membros e não de acordo com a pauta do governo.
O estudante critica as lideranças e diz que nem todos os que estão com o MST são sem-terra. Ora, as lideranças do MST nasceram e se criaram na terra, são filhos de pequenos agricultores. E qualquer bom sociólogo dirá que uma luta, um reivindicação necessita também ter seus intelectuais orgânicos, especialmente no caso do povo brasileiro que historicamente foi excluído de tantas necessidades, como o saber e a educação. Sem lideranças, os pobres nunca deixarão de ser pobres; os sem-terra nunca chegarão a ter terra. E por que alguém que está numa situação melhor não pode ajudar os mais fracos a conseguir seus direitos? É proibida a solidariedade?
Não concordo que este governo esteja fazendo a sua parte na questão da reforma agrária. Foi a partir das ocupações de terra, que o governo teve que fazer assentamentos. Portanto, se há alguma coisa de reforma agrária acontecendo do Brasil, isso deve ser atribuído à ação do MST. E diga-se outra verdade: quando o governo fez, na maioria das vezes, fez mal feito o serviço, dando terra, mas não proporcionando a infra-estrutura necessária. E se em quatro anos assentou umas 300 mil famílias (segundo os dados do governo), é preciso dizer também que nestes quatro anos de FHC já foram mais de 400 mil famílias de pequenos agricultores que perderam as suas terras, por causa da política agrícola que importa arroz, feijão, algodão, milho, pipoca, leite, e até água-de-coco... e não valoriza o que nossos colonos produzem.
É estranho que o MST seja tão combatido no Brasil. É fácil ver pessoas que até defendam a reforma agrária, mas condenam o movimento que proporciona a sua realização. A essas pessoas é preciso dizer que o MST e suas ações foram premiadas e elogiadas por órgãos da ONU; que o MST recebeu o Prêmio Rei Balduíno da Bélgica; que fora do País o MST é reconhecido como verdadeiro movimento democrático e social.
Quem não valoriza o MST é um governo que não está a fim de fazer reforma agrária, porque seus compromissos não são com o povo brasileiro, mas com credores internacionais. Basta ver quantos bilhões de dólares foram gastos neste ano para pagar juros da dívida. Nos quatro anos de FHC foram remetidos ao estrangeiro em torno de US$ 140 bilhões, o suficiente para fazer duas vezes toda a reforma agrária necessária no País. Quantos bilhões este governo gastou para salvar os bancos falidos? Quantas empresas estatais e quanto capital nacional foi entregue aos estrangeiros?
A exemplo da televisão, o estudante condena o MST como violento e criminoso. Gostaria de lembrar que não há comparação entre o número de mortos, feridos e presos do MST com o dos latifundiários. Nos últimos 10 anos, já passam de mil trabalhadores, liderancas do MST, agentes (padres, irmãs, advogados) que foram assassinados pelos latifundiários, pistoleiros ou pela polícia por causa da luta pela terra. E a maioria desses crimes continua sem julgamento e seus responsáveis impunes. Basta ver os massacres de Corumbiara e Eldorado dos Carajás. Violentos são os latifundiários que matam e armam pistoleiros. Violenta é a polícia do governo que mata, tortura, despeja famílias, agindo de madrugada desrespeitando a Constituição. Violenta é a fome que mata em torno de 500 mil crianças por ano...
O governo já foi avisado tantas vezes: que se quiser acabar com o MST, é só fazer uma reforma agrária. Todos os países desenvolvidos realizaram a reforma agrária. No Brasil, milhões de famílias que hoje estão na marginalidade poderiam voltar ao campo e fazer o que elas sabem que é trabalhar, produzir comida, alimentos. Neste momento de grave crise e desemprego, a reforma agrária é o meio mais barato de se criar empregos, segundo dados do próprio governo. E diga-se também: para um povo faminto, esquecido pelos governantes, sem terra, sem sonhos, o MST foi o movimento que conseguiu apontar um horizonte e uma esperança.
O fato de o MST se envolver em outras lutas, é sinal que o movimento consegue alargar sua visão. Não basta terra. O povo quer saúde, casa, educação, alimento, dignidade, cidadania, e também um campo para jogar futebol (que mal há nisso?). Isso não vem por acaso. São conquistas que o MST quer levar também ao povo da cidade. O MST quer ensinar a um país que tem mais de 30 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e da miséria, que temos direitos, que precisamos ter dignidade, que não podemos ficar mendigando, esperando cestas básicas em troca de votos.
Em suas marchas, o MST discute com a população um Brasil que queremos. Talvez isso incomode os que querem fazer do povo massa de manobra, para conseguir os votos para se eleger e depois ficar quatro anos mamando nas tetas do governo. Esses sim são manipuladores do povo. Nunca vão querer que se resolva o problema da fome, da miséria e da educação. Um povo consciente, que não precise de cestas básicas, não votará jamais no opressor ou em quem lhe paga mais.
Por fim, é importante dizer: a reforma agrária é uma luta de todos. Assim como a conquista da cidadania e da dignidade. É luta dos camponeses. É luta de estudantes. É luta de professores e de intelectuais. É luta nossa como religiosos, pois Jesus também veio para que todos tenham vida e vida em abundância (João 10,10). Paulo Freire dizia que seu sonho maior era ver todo o povo em marcha.
A exemplo do MST queremos ver o povo brasileiro sendo protagonista de um novo Brasil: justo, democrático, e onde o povo possa sonhar e ser feliz. Nossa terra é bela, rica e generosa. O povo é bom, trabalhador e honesto. Aqui não é o lugar para a fome e a opressão. Que o povo marche e juntos possamos construir um novo Brasil, onde todos estejam incluídos.
- ILSO PERONDI é frei franciscano-capuchinho em Curitiba


