Ousada ou abusada?
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de agosto de 1998
Joel Samways Neto 
Não sei se está no Paraná inteiro; na Capital, está. São outdoors que uma agência de publicidade espalhou por Curitiba, a pretexto de celebrar seu primeiro aniversário. Tem o nome da agência e, ao lado, um bebê, supostamente com um ano de idade, em pé, completamente nu e com o pênis ereto.
Olhe, não se trata, em hipótese alguma, de discorrer sobre hipocrisia falso-moralista. Mas esse tipo de publicidade simplesmente arrebenta com os freios redibitórios da mentalidade social, que mantinham o uso da imagem de bebês à publicidade de fraldas, leite em pó, cosméticos, doces e brinquedos - e apesar disso, com um mínimo de respeito. Claro, pode-se argumentar que as crianças são manipuladas de diversas formas pelo adultos da área publicitária. É óbvio que os pais dessas crianças também estão usando a imagem delas, tanto quanto a agência. Por mais que o resultado do trabalho seja gracioso, mimoso, ninguém é bobo de esquecer que a estória não passa de outra artimanha da indústria de consumo. Nenhuma novidade nisso aí. Agora, venhamos e convenhamos: há limite para tudo.
Francamente, quando olhei pelo primeira vez a tal placa não compreendi direito. Achei que tinham colado errado o cartaz. Porém, à medida que fui vendo outras placas, constatei que a foto era mesmo aquilo que eu tinha pensado que era. No dia seguinte, a Rádio CBN divulgou a reclamação de um cidadão curitibano, pedindo providências ao Juizado de Menores. Depois, entrevistou o responsável pela tal agência, que disse que a intenção não era chocar, que isso era natural, que todo mundo que tivesse um filho ou sobrinho, pequenos, já tinha visto... E concluiu, dizendo que a idéia era mostrar que a agência, embora com apenas um ano, está com tesão de continuar trabalhando. Indagado se o modo não era muito ousado, o sujeito afirmou que sim, que era ousado, e que se não fosse ousado não chamaria a atenção de ninguém.
Corri verificar a legislação pertinente a proteção das crianças em nosso País. Ali, no Estatuto da Criança e do Adolescente, a norma jurídica diz que a criança tem direito à preservação de sua imagem e que é dever de todos velar por sua dignidade e pô-la a salvo de qualquer tratamento constrangedor ou vexatório. Decerto o Ministério Público Estadual haverá de tomar as providências que entender cabíveis para proteger não só a criança da foto, mas todas as crianças e os pais de crianças, que se sintam embaraçados em perguntar, ou ter de explicar, senão o fenômeno da natureza, o fenômeno publicitário dito ousado.
Qual a diferença entre usar a imagem de um bebê como símbolo de uma empresa comercial, que se insinua potente, e usar a imagem de um atleta para fazer propaganda de cigarros? A meu ver, nenhuma diferença. Num e noutro caso, o descaso com a pessoa humana, em seu ser integral (físico, mental, espiritual).
Aonde mais irá a publicidade aética, em busca de ousadias alegadamente originais? O sexo, o corpo humano fetichizado em seios, glúteos, coxas, ancas, caras e bocas... Matéria-prima que interfere nos hormônios das pessoas, mexe com os instintos de sobrevivência e reprodução. Pura covardia e frágil profissionalismo. O diretor de cinema Spike Lee disse, certa vez, que a coisa mais fácil era ganhar dinheiro fazendo filmes - bastava produzir um close-up de nádegas fartas e peitos bojudos. Difícil mesmo, completou, era fazer cinema.
Na verdade, em nome de pretensas ousadias é que os brasileiros vêm consumindo abusos e escândalos gerados no planeta publicidade. Aliás, o escândalo é o grande álibi da mediocridade no setor. Se o trabalho escandalizou, irritou, enojou, o autor da obra vem com a conversa fiada de que o objetivo era justamente causar polêmica. Fizeram isso naquela malsinada campanha de prevenção à Aids, lembra? Eram curtas-metragens cheios de criatividade e técnica cinematográfica, nos quais o protagonista apelidava seu pênis de braúlio. E depois que os cidadãos cujo nome é Braúlio reagiram (e com toda a razão), a desculpa esfarrapada foi a tal de que o objetivo era polemizar. Às favas com essas ousadias pseudo-intelectualizadas! Onde está o limite ético? Pode a Constituição da República, versão 1988, ter retirado a expressão ordem pública e bons costumes, parâmetro do exercício de liberdade individual, mas manteve, como fundamento, a dignidade da pessoa humana - também fundamento da consciência coletiva nacional. Ainda é.
Até quando suportaremos os abusos da publicidade impune?


