Otan x Iugoslávia: briga xenófoba
Nas últimas semanas o mundo assiste pela TV aos ataques constantes da Otan sobre a Iugoslávia, por causa do conflito em Kosovo. As imagens de milhares de albaneses fugindo da ‘‘limpeza étnica’’ praticada pelo presidente iugoslavo Slobodan Milosevic chocam as pessoas dos países em paz.
A justificativa dos líderes dos 19 países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é que Milosevic tem praticado um massacre constante no seu país, expulsando os albaneses para as terras vizinhas. Em nome da paz, os ‘‘heróis’’ do mundo lançam toneladas de bombas sobre uma população que muitas vezes nada tem a ver com a vontade e as atitudes políticas de um presidente.
Cabe uma reflexão sobre esta atitude. O que os países europeus não estão querendo, na verdade, é aceitar que os albaneses, tratados pelos iugoslavos como povo sem origem, sem pátria e sem religião, busquem abrigo nos países vizinhos. A limpeza étnica é feita às claras pela Iugoslávia e veladamente pelos seus vizinhos europeus.
Basta lembrar que, nesta década, muitas matérias foram publicadas sobre a xenofobia dos europeus na Alemanha, Itália, França, onde famílias eram espancadas, tinham seus pertences queimados por serem estrangeiros. Na Alemanha o caso era mais sério, trazendo de volta os neonazistas, com suas brigas de ruas e campanhas abertas contra os estrangeiros. Os Estados Unidos são outro país que não aceita mais estrangeiros.
Causou-me estranheza, ao anúncio dos países aliados da Otan, de que iriam levar milhares de albaneses para suas terras. Porém, a resposta veio em seguida: será por tempo determinado, até que a situação esteja restabelecida na Iugoslávia e os albaneses possam voltar à pátria.
Diante dessas justificativas, pergunto: por que a Otan não interveio durante a guerra da Bósnia? Não aconteciam atrocidades? Não havia campos de concentração como agora? Por que a demora no socorro aos povos dessas etnias que brigam por um pedaço de terra menor que o Estado de Sergipe?
E por que a Organização das Nações Unidas (Onu) não interveio nas guerrilhas de países africanos? Ou nas atrocidades cometidas contra os cristãos na Indonésia? Pessoas são decapitadas inocentemente por causa de uma briga familiar, em torno de um poder absoluto de grupos de interesse.
A resposta é que esses países não estão incomodando o interesse financeiro e a soberania dos países desenvolvidos, como Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Alemanha, França. O Iraque, que está em briga com os Estados Unidos até hoje, tem uma explicação: a soberania econômica sobre o petróleo no Oriente Médio. Só por isso os americanos estão incomodados com as ameaças de Sadam Hussein.
As notícias proliferam diariamente nos meios de comunicação. Porém, é necessário tentar entender o porquê destes conflitos. E não através de fontes oficiais, que vão tentar se vangloriar e dar uma justificativa a favor. É comum nos alimentar da notícia, sem questionar quem, quando, como e por que estes espisódios acontecem. Temos que buscar na história a resposta para esta e tantas outras guerras e conflitos étnicos. Não sou a favor de nenhuma, mas não podemos aceitar pura e simplesmente como estão sendo retratadas.
- ALEXANDRE SANCHES VICENTE é jornalista da ‘‘Folha’’ em Londrina.

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