RIO- Alvo de muitas críticas por causa das recentes invasões de terras e da radicalização do discurso, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) sempre teve no arquiteto Oscar Niemeyer, de 95 anos, um aliado. O apoio foi reforçado agora com uma nova criação do arquiteto em homenagem aos sem-terra. O esboço do monumento será apresentado ao líder do MST João Pedro Stédile. Depois, a peça original terá 4.800 reproduções e cada uma será enviada a um assentamento do movimento, segundo Niemeyer.
Nesta entrevista, com perguntas e respostas enviadas por e-mail, o arquiteto que desenhou Brasília elogia a ''habilidade'' de Stédile e diz que pára qualquer atividade para atender a um pedido do MST.
Agência Estado - Que avaliação o senhor faz dos últimos episódios envolvendo a questão agrária, com reiteradas ocupações de terras e alertas das autoridades de que não vão aceitar o desrespeito à lei?
Oscar Niemeyer - Sabemos que não faltará provocação, nem sordidez contra a reforma agrária, que muitos vão esquecer que milhares de brasileiros - homens, mulheres e crianças - estão a lutar, nas estradas, pela terra e pelo teto que há séculos lhes deveriam pertencer. Mas a maneira habilidosa e firme com que o MST, liderado por Stédile, conduz a reforma agrária nos faz acreditar que tudo correrá bem.
AE - O senhor concorda com a opção dos coordenadores do MST de radicalizar o discurso contra o latifúndio e os proprietários de terras?
Niemeyer - É lógico.
AE - Acredita que possa haver um recrudescimento ainda maior na tensão no campo?
Niemeyer - Prefiro acreditar que não, mas a luta pela terra é justa e inevitável.
AE - A situação no campo atualmente, na sua opinião, é preocupante ou está sob controle?
Niemeyer - Ela é difícil, mas a luta pela terra tem que prosseguir, independentemente de tudo de ruim que possa acontecer. Quando se trata de defender a vida, todo o resto é secundário.
AE - O senhor considera satisfatória a política agrária apresentada pelo presidente Lula até agora?
Niemeyer - A meu ver, o presidente compreende a importância da reforma agrária e saberá resistir aos que pretendem comprometer a sua continuidade indispensável.
AE - O senhor esperava que, eleito Lula, o relacionamento entre governo e trabalhadores rurais fosse mais amistoso, acreditou que poderia haver uma ''trégua'' nas ocupações?
Niemeyer - Acho que o problema da reforma agrária terá solução satisfatória. Não é justo que num país de dimensões continentais nossos irmãos mais pobres não tenham nem teto nem terra para viverem dignamente. Qualquer atraso nesse sentido me parece pura perversidade.
AE - Que ações concretas poderiam diminuir os conflitos?
Niemeyer - As medidas concretas para se assegurar a reforma agrária. O Movimento dos Sem-Terra é considerado hoje tão importante aqui e no exterior que, a meu ver, nada poderá impedir o seu êxito tão desejado.
AE - Que avaliação o senhor faz nas ocupações urbanas, dos sem-teto?
Niemeyer - Quando não existe justiça é a miséria se multiplica, tudo pode acontecer.
AE - Que pontos positivos e negativos apontaria no governo de Luiz Inácio Lula da Silva?
Niemeyer - Acreditamos na sinceridade do Lula. Sua política externa tem muitos aspectos positivos, mas a política econômica, que é o principal, precisa voltar-se para a promoção do desenvolvimento e a defesa da economia nacional.
AE - O senhor foi convidado para fazer um novo monumento em homenagem ao MST. O que tem em mente?
Niemeyer - Tempos atrás fiz um monumento para o MST. Agora, acabo de desenhar outro para ser distribuído nos assentamentos - mais de 4.800. E paro tudo que estiver fazendo para atender Stédile e seus companheiros do MST, ou qualquer outro apelo que represente a defesa de nossos irmãos mais pobres e da nossa soberania tão ofendida.

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