Oscar 2026 e o cinema brasileiro
"O Agente Secreto" é um filme de primeira grandeza e não terá sua relevância histórica diminuída por não ter ganhado um Oscar
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quinta-feira, 19 de março de 2026
"O Agente Secreto" é um filme de primeira grandeza e não terá sua relevância histórica diminuída por não ter ganhado um Oscar
Rodrigo Grota 
Antes de tudo, é importante dizer: "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, é um filme de primeira grandeza, e não terá sua relevância histórica diminuída por não ter ganhado um Oscar. É uma das poucas obras recentes que conseguiu sintetizar, de forma muito inventiva (e sarcástica), o clima social e político que vivenciamos nos últimos 10 anos em nosso País.
Para aqueles que não sintonizaram com a proposta estética do filme, recomendo a leitura do roteiro (publicado em novembro) e uma revisão (de preferência em uma sala de cinema). Nem todo filme nos encanta ou nos captura em uma primeira sessão: ainda mais sendo um filme como esse, muito original em sua estrutura e muito sofisticado em suas múltiplas camadas.
Com as três indicações de "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, ao Oscar no ano passado, e as quatro do filme de Kleber Mendonça Filho, temos históricas sete indicações para o cinema brasileiro em apenas dois anos. Isso traz visibilidade ao nosso cinema, em contexto internacional e na mídia brasileira, mas não resolve questões estruturais do nosso audiovisual.
Que questões seriam essas? Temos problemas históricos relacionados a quatro áreas: formação, exibição, preservação e produção.
Pensando em formação, ainda há pouquíssimas faculdades de cinema no País, o que reduz também a formação de pesquisadores, críticos e profissionais de restauro e conservação.
No que se refere à difusão do nosso cinema, temos mais de 3.500 salas espalhadas pelo País, mas que raramente dão espaço privilegiado a filmes nacionais. Projetos do governo federal como a Programadora Brasil (que lançava DVDs de clássicos nacionais) e o Cine Mais Cultura (que formava cineclubes) foram extintos. Resultado: a população brasileira, em sua grande maioria, ainda desconhece o seu próprio cinema.
Uma solução incrível seria incluir cinema enquanto disciplina opcional nas escolas para alunos acima de 12 anos: filmes brasileiros poderiam ser usados nas aulas de história, filosofia, sociologia etc. Crianças mais novas poderiam ter acesso a produções infantis brasileiras.
No que se refere à produção, com as sete indicações, temos o momento perfeito para conseguir no Congresso uma regulamentação dos streamings que seja favorável à nossa cadeia produtiva, gerando mais empregos e melhores salários, além de proteger a propriedade intelectual dos projetos para as produtoras e autores brasileiros.
Como dizia o ator Paulo José, nós fazemos o melhor cinema brasileiro do mundo. Esse é o momento perfeito para lutarmos para que ele seja mais diverso, mais igualitário e ainda mais representativo da nossa cultura!
Rodrigo Grota, cineasta, sócio da produtora Kinopus e criador da Kinoarte, doutor em literatura e autor dos livros 'Fantasmátika' e 'Cinemátika'


