Os ventos que sopram de Wall Street - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de fevereiro de 1999
José Fernando da Silva 
Nestes últimos dias - dias últimos de nosso cambaleante século - detenho-me a observar a fisionomia das pessoas que passam pela rua. Todos vão preocupados, vexados, cabisbaixos, taciturnos, esperando o desaguar das nuvens escuras que teimam em nos acompanhar. Um vento morno, destes que antecedem às tempestades, sopra de Wall Street e mexe com o cabelo do vendedor de frutas no centro da cidade. Ao lado das maçãs, impecáveis e vermelhas, o vendedor guarda um giz, sempre pronto para modificar os preços de uma minúscula tabela pendurada na barraca de frutas.
Fico mais alguns minutos a observar o vaivém das pessoas pelas ruas. Alguns entram na igreja. Em tempos de pura desesperança, parte da humanidade tende a buscar amparo nas coisas do céu. Levando em conta as caras amarradas que vejo, concluo que o Deus de nosso tempo deve ser triste e profundamente mal-humorado. Perdão, cometo este sacrilégio pensando em Xenófanes que ensinava que os homens fazem os deuses a sua imagem e semelhança. Caso as vacas, cavalos e leões tivessem a capacidade da razão, com certeza, pelo raciocínio de Xenófanes, teríamos deuses parecidos com estes animais. Sou fraco na fé, mas acredito que as pessoas buscam a igreja porque perderam a esperança em seus outros deuses, no dinheiro principalmente.
Ao pé da escadaria da Catedral católica observo um mendigo - qualquer igreja não seria igreja sem um pedinte em suas escadas. Os despossuídos, os ilhados pela nossa indiferença, sabem que os homens costumam praticar a caridade ali, e só ali, temerosos dos olhos irados do Deus que os observam do campanário. Associo a imagem deste mendigo a de Diógenes, que vivia na velha Grécia dentro de um barril, vestido apenas com uma túnica e portando um embornal de pão. Era o que ele precisava para viver. Imagino o suposto presidente Fernando Henrique descendo da torre dos sinos da Catedral, onde passou os últimos quatro anos e meio dando conselhos ao seu amigo divino. O mendigo se assusta ao ver tal figura em pé ao seu lado. FHC diz ao mendicante: Riquezas, glória, peça-me o que quiser. E o esmoleiro responde: Peço que o senhor se afaste. Aí parado, caro presidente, o senhor priva-me do prazer da luz do sol.
Continuo meu caminhar, pois é mister se caminhar. Para que lado? Qualquer lado, posto que tudo acaba no mesmo lugar. Mas até lá, o estancar final, é bom observar quem nos acompanha os passos - no fundo, nós guardamos esta tola esperança de que alguém encontre um novo caminho.
Ao largo, uma mulher arrasta um pesado carrinho carregado de papel velho. Junto aos restos dos jornais que falam da crise, da economia, da política, vai uma criança da cara suja. Perco a esperança. Qualquer esperança, aquela que não existe nos olhos da mulher e muito menos da criança. Do que foi feito daquele meu País fadado ao sucesso? Do meu País cantado em versos ufanistas da década de 70? Um país que iria para a frente e que hoje se ajoelha diante dos agiotas do Fundo Monetário Internacional? Nada.
Sou fraco na fé, já disse. E sinto uma pontinha de esperança quando me lembro de Salomão, filho de Davi e rei de Israel, Um governo continuará no poder enquanto for humano, justo e honesto. Paro numa banca de jornais e me assusto com as manchetes que eu ajudei a escrever na noite anterior. Nada neste governo é humano, está aí o recorde dos desempregados, famintos e doentes para justificar o que eu afirmo. Nada neste governo é justo. Roem suas vísceras, os prepostos de grandes grupos econômicos e agiotas. Nada neste governo é honesto. De posse de informações privilegiadas, nossos bonifrates dos banqueiros internacionais metem a mão no dinheiro e no patrimônio do povo diretamente no mercado financeiro. O roubo sempre pode ser sofisticado, melhorado em método. Uma safadeza bem bolada, pois neste campo chamado mercado a única lei que vigora é a do mais esperto. E eles descobriram o caminho das pedras: para que esperar, como antigamente, o dinheiro chegar aos cofres do governo? Melhor é pegar esta grana esvoaçante, que é do povo, a meio caminho, entre um trambique de mercado e outro.
É tarde. O vendedor de frutas já foi embora. As escadarias da igreja estão limpas. E a catadora de papel - com seu anjo da cara suja - envereda por uma rua que termina num muro.


