Transformar o futuro. Este é o grito que a velha e sábia Europa está dando neste tempo de irreversível globalização. As recentes vitórias sociais-democratas de Tony Blair, na Inglaterra e de Lionel Jospin, na França, sinalizam que os novos ventos europeus não são localizados e isolados. Na Itália, o governo Prodi, igualmente social-democrata, fortalece o eixo Roma-Londres-Paris e que se estende pelo continente. A totalidade são governos sociais-democratas e de centro-esquerda. A exceção fica com a Espanha de José Maria Aznar e a Alemanha de Helmut Kohl. São os dois únicos governos conservadores, hoje, na Europa. E na Alemanha, nas eleições do próximo ano, a vitória da oposição social-democrata já é contabilizada como certa.
No mundo globalizado que vivemos, mais dia, menos dia, a despeito da fragilidade dos partidos políticos brasileiros e, de modo geral, da baixa densidade organizativa da sociedade brasileira, esses eventos fatalmente chegarão, com atraso, por essas bandas. As cabeças mais abertas e informadas devem começar a refletir sobre o que está ocorrendo na velha e sábia Europa. A onda neoliberal está sendo sepultada e a verdadeira social-democracia está se reorganizando para enfrentar os desafios do pós-comunismo e da globalização.
Reformar para valer o velho Estado patrimonialista é o grande objetivo, mas sem se submeter à globalização imposta pelos Estados Unidos. O professor Alain Chanais, da Universidade de Paris, definiu uma frase: ‘‘A Europa não suporta o modelo americano’’. O que querem os europeus? Querem a diminuição do Estado na economia, mas não abrem mão de um Estado forte na área social. Através de investimentos maciços na educação, na saúde, na seguridade social. O professor Adam Steinhouse, da London School of Ecomomics, sentencia: ‘‘O que as pessoas reivindicam são mais e melhores serviços públicos, com a criação de empregos e sistemas de saúde pública e educação entre as prioridades fundamentais’’.
Os ventos que sopram no velho continente demonstram que não se pode deixar de modernizar-se também na luta política. Não pregam a volta ao passado, libertando o presente para se construir um futuro de desenvolvimento com justiça social. Igualmente no Brasil a sociedade optou pela reforma do Estado, por uma consistente e séria política de privatização, mas os atores políticos, tanto pelo lado do governo ou pelas bandas da oposição, vêm mantendo, ambos, posições equivocadas. Talvez por isso, o grande debate que deveria estar sendo travado entre governo e oposições fica restrito à pasmaceira da mediocridade de ‘‘slogans’’ e nada mais.
O Congresso Nacional onde esses temas deveriam predominar nos seus debates, de há muito abriu mão dessa prerrogativa. Não se debate o Brasil e os seus problemas e soluções. O parlamento passou a ter a sua pauta de discussões e votações definida pelo poder Executivo. A própria falta de uma reforma política que possibilitasse a existência de partidos políticos autênticos verdadeiramente representativos dos vários segmentos da sociedade, garante a predominância desse ‘‘cenário cinzento’’ onde todos são ludibriados. Representantes e representados.
O velho amigo jornalista Franklin Martins, na sua coluna de ‘‘O Globo’’ de 9-6-67, alertava: ‘‘Fernando Henrique tem muito a aprender com os ventos que sopram na Europa. A derrota dos neoliberais é um atestado de que é politicamente insustentável um modelo de crescimento econômico que exclui (e não inclui) novas camadas de trabalhadores dos benefícios do progresso. Não é possível sustentar por muito tempo uma situação em que os bons resultados na economia não se estendam aos sem-terra, os sem-emprego, os sem-escola, os sem-saúde, os sem-cidadania’’.
Não basta apenas a estabilização. A economia precisa elevar o seu ritmo de crescimento, aumentando a oferta de empregos e através de políticas públicas definidas corrigir equívocos. Sem isso, dificilmente os ventos europeus deixarão de chegar aqui.

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