‘‘Nenhum homem envelhece enquanto está em busca de alguma coisa’’. (Jean Rostand). A técnica – ou a arte – de prever tem sido frequentemente desmoralizada, nesses últimos tempos, em função das monumentais mancadas dos previsores. As previsões do escocês Malthus, por exemplo, no século 18, para um mundo em que se esgotariam rapidamente as reservas de alimentos, são até hoje citadas como exemplo desse tipo de erro. As do francês Nostradamus, bem mais antigas, só se mantêm como objeto de interesse pela linguagem hermeticamente simbólica em que foram formuladas – e que até hoje permite que seus vários intérpretes leiam nelas – sempre post facto – mais ou menos tudo aquilo que querem ler.
Na sua edição especial de fim de ano – que sempre aborda algum tipo de tema original – a revista ‘‘The Economist’’ menciona essas dificuldades encontradas pelos previsores, sobretudo na área econômica, e propõe uma explicação intrigante. A grande inimiga da previsão é a descontinuidade. Ou seja, ao tentar prolongar uma tendência estatística histórica, no futuro, a simples matemática pode não levar em conta uma variável nova, não existente no passado, que ‘‘fura’’ a previsão. Por outro lado, haveria previsões que acabam se confirmando, porém de forma inesperada, ou então, com um timing diferente daquele previsto originalmente.
Um exemplo dessa última possibilidade é, exatamente, a Teoria de Malthus. Nosso Planeta poderá, eventualmente, esgotar a sua capacidade de nutrir a humanidade, caso ela insista nas práticas predatórias e poluentes que estão, cada vez mais, comprometendo o meio-ambiente e o equilíbrio ecológico. Esse é um caso em que as variáveis novas, em vez de destruir, viriam reforçar a hipótese inicial. E a previsão acabaria dando ‘‘certo’’, ainda que alguns séculos (ou milênios) mais tarde.
Mas voltemos a ‘‘The Economist’’, cujo tema da edição especial de 2000 foi ‘‘O Velho e o Novo’’. A revista se refere a uma previsão feita em 1900 que se confirmou no século 20. Foi a de que a população da maioria dos países do mundo, que vivia predominantemente no campo, passaria a morar nas cidades. Ninguém foi capaz de prever, com muita exatidão, quais as consequências desse movimento, mas ele ocorreu e – agora – conhecemos boa parte dos problemas e das oportunidades que suscitaram.
Assim, continuam os editores da revista inglesa, embora saibamos tanto (ou quase nada) como sabiam ou não sabiam os nossos avós, há cem anos, existe uma tendência demográfica que se vem acentuando nos últimos anos e que deverá ‘‘dar o tom’’ nas principais mudanças que ocorrerão neste século 21. Trata-se da modificação na estrutura etária das populações. Embora existam mais jovens do que nunca, entre os mais de 6 bilhões de terráqueos o número de pessoas idosas cresce, proporcionalmente, a cada ano.
Excetuando-se algumas áreas, como a Africa sub-Saara, onde a Aids assumiu proporções epidêmicas, o fenômeno ocorre em praticamente todos os países do mundo. E deve ser, sem dúvida, um dos principais temas de debate, tanto para as empresas como para a os governos e para a sociedade como um todo – em todos os países do mundo.
Não só cresce o número de idosos, como se torna mais longo o período produtivo nas vidas das pessoas. Diante das estatísticas, até quando poderemos cultivar a ficção de que se possam ‘‘aposentar’’ depois de três décadas de atividade? Muitos homens de 55 – e mulheres de 50 anos – têm, diante de si, facilmente, mais 30 anos para exercer praticamente quaisquer tipos de funções.
Uma outra questão que se vai colocar: nessa prolongada vida profissional, como se vai dar o convívio entre as gerações? Como será a empresa ou instituição que empregará, lado-a-lado, colaboradores com 20, 30, 50 e 80 anos? O que farão? Como interagirão? Mais: nessa nova sociedade, quem serão os ‘‘jovens’’ – os de 25? Os de 39? E os velhos?
Eis aí, mais uma vez, colocada pelo ‘‘Economist’’, uma questão de extraordinária pertinência, para que nela exerçamos nossas preocupações mais saudáveis nesse início de milênio.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente de instituição superior no Rio de Janeiro

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