Os valores das mulheres precisam ser resgatados
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segunda-feira, 31 de março de 2003
Gleisi Hoffmann 
No mês de março, nós, mulheres, festejamos o crescimento da participação da mulher na vida pública. O governo federal tem cinco ministras e o número de mulheres na Câmara Federal saltou de 29 deputadas para 42 parlamentares. O Paraná, pela primeira vez em 150 anos de emancipação política, elegeu uma mulher para a Câmara de Deputados, a dra. Clair da Flora Martins. Depois, Selma Schons somou-se a ela. Hoje, quatro mulheres estão entre os deputados estaduais, ao mesmo tempo em que um bom número de mulheres assumiu importantes cargos nas administrações públicas estaduais e federal.
Mas, ainda é muito pouco e a questão fundamental homens e mulheres devem ter os mesmos direitos e deveres infelizmente não foi solucionada. No Brasil e no mundo, as mulheres convivem diariamente com o preconceito, a dupla jornada de trabalho, as poucas possibilidades de ascensão profissional, os salários mais baixos em relação aos homens, a dificuldade de ocupar posições de comando.
Nestes oito mil anos de patriarcado, a mulher foi encerrada ao ambiente doméstico e, com ela, os valores femininos do cuidado, da partilha e da solidariedade a mulher ficou invisível. O papel divino de dar a vida e carregar a fecundidade, preponderante no primeiro milhão de vida humana no planeta, que legara à mulher o dom divino e a liderança dos grupos humanos, foi substituído por sua caracterização de pecadora, diabólica e inferior nas relações com os homens. Até o parto foi desqualificado quando o homem, representado por Adão no texto bíblico, ''pariu'' a ''primeira'' mulher, Eva, de sua costela.
Na Idade Média, a repressão masculina se fortaleceu ainda mais. Ao retornar de suas batalhas para ampliação de territórios, os homens encontravam mulheres organizadas coletivamente, cuidando desde a produção de alimentos até a saúde do grupo. Pequenas agricultoras foram mortas, acusadas de bruxas, assim como eram queimadas pela Inquisição aquelas que viviam abertamente sua sexualidade ou que haviam descoberto como as ervas podiam curar. E a repressão prosseguiu na sociedade industrial, com a mulher sem orgasmo e, no campo profissional, servindo de mão de obra barata.
Essa situação começou a mudar somente a partir de meados do Século 20. No Brasil, a questão feminina passou a ser debatida nos anos 70, com a introdução do feminismo. Hoje, no princípio do Terceiro Milênio, já temos empresas brasileiras aplicando políticas diferenciadas para as empregadas, como a criação de conselhos de mulheres para discussão de temas relacionados ao papel da mulher no trabalho, a possibilidade de trabalhar em casa e a introdução de horário flexível.
Apesar dos ganhos obtidos, precisamos avançar ainda mais. A igualdade entre homens e mulheres só será atingida na partilha do cuidado com os filhos e quando os valores femininos como a solidariedade e a amorosidade, que podem salvar o planeta forem disseminados para a vida pública. Foi a ausência desses valores que levou a humanidade a tantas guerras, inclusive esta que presenciamos hoje, com tristeza.
Mas, para que tudo isso se reverta, é imperativo termos o homem ao nosso lado, como companheiro, parceiro, perceptivo e aberto a esses valores. Homens e mulheres juntos, com valores em equilíbrio, construiremos um mundo melhor.
GLEISI HOFFMANN é diretora financeira executiva da Itaipu Binacional


