‘‘Os vagabundos’’
Paulo Bernardo
O presidente Fernando Henrique taxou de ‘‘vagabundos’’ aqueles que se aposentam com menos de 50 anos de idade. Deixou a população perplexa com sua incontinência verbal, assumida depois da morte do ex-ministro Sérgio Motta, que no governo era quem não tinha papas na língua, e ofendeu sua base de sustentação política integrada por vários aposentados precoces. Entre eles o deputado e ex-ministro da Previdência Reinhold Stephanes (PFL-PR), aposentado aos 46 anos. A lista é grande e inclui também o ex-presidente José Sarney, que se aposentou pela primeira vez aos 40 anos e acumula outras aposentadorias. O próprio presidente aposentou-se muito antes da idade mínima que hoje ele tenta impor.
Por um momento o presidente trocou as citações de grandes filósofos e catedráticos por uma linguagem chula e equivocada. Vagabundo é o sujeito que não trabalha, que vive de favores e vadiagens. Perfil que, sem dúvida, não cabe à maioria absoluta da população brasileira que cumpre 8 a 16 horas de trabalho diário e recebe um salário vergonhoso. Não são raras no país pessoas que começam a trabalhar ainda aos dez, doze anos de idade. Querer estabelecer idade mínima de 60 anos para eles se aposentarem é o mesmo que usurpar parte de suas vidas e de seu dinheiro, já que nesta idade terão contribuído por muito mais tempo do que os cidadãos que entram no mercado de trabalho tardiamente.
A atitude do presidente demonstra que ele está perdendo o controle da situação, que não conseguiu assumir o comando político de seu governo depois das mortes de seus líderes e evidencia, para o grande público, a sua conhecida falta de tato frente a situações que exigem habilidades para a articulação. Foi seu lado, digamos, inflexível, que prevaleceu até hoje nas negociações pouco assépticas que ele mantém junto à base governista dentro do Congresso.
Sua dificuldade de articular politicamente para fazer prevalecer suas idéias, levou seu governo para o caminho mais fácil e menos seguro da compra de votos e atendimento a demandas eleitoreiras. Se soubesse transitar democraticamente pelo mundo político, composto de idéias e práticas às vezes antagônicas, outras nem tanto, FHC poderia ser ele mesmo o grande negociador de seu governo. Falo de negociações e não de negociatas.
Mas desde o início de seu mandato o presidente optou por impor suas propostas sem antes debatê-las com a sociedade, com as oposições ou mesmo com sua bancada. Apostou na tática do rolo compressor, movido pelo dinheiro público liberado para emendas orçamentárias de parlamentares. A explosão verborrágica do presidente, que em poucos dias classificou sua relação com o Congresso como suja, passou pito público na sua própria bancada, chamando parte de seus aliados de banda pobre só porque pensam diferente dele, e que agora, deu pecha de vagabundo a todos os que se aposentam aos 50 anos, demonstra seu espírito autoritário e sua pouca habilidade em lidar com as diferenças inerentes ao sistema democrático.
Mas se existem vagabundos aposentados, como diz Fernando Henrique, é preciso investigar. Por isso, estou apresentando um requerimento pedindo informações ao ministro da Administração, Bresser Pereira, para que ele informe ao Brasil quem são os servidores contratados por esse governo que se encaixam no perfil traçado pelo presidente e que, apesar de tão maltratados por sua dura linguagem, continuam a servi-lo cordialmente. Os miseráveis do Brasil, que recebem um salário mínimo de aposentadoria, estão ansiosos por conhecer os vagabundos que tanto irritam o presidente. Um pequeno detalhe: aos nomes citados no início deste artigo deve ser acrescentado o do ex-secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge, afastado para coordenar a campanha eleitoral de FHC.
- PAULO BERNARDO é deputado federal pelo (PT-PR) e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados.

mockup