Os transgênicos e o nosso futuro
Os transgênicos e o nosso futuro
Pedro Branco
Neste final de século estamos diante de grandes transformações baseadas em conquistas científicas e avanços tecnológicos, que mudarão de forma até então nunca vista a existência do ser humano num prazo relativamente curto, previsto em aproximadamente vinte anos em alguns dos seus resultados. Uma das maiores e recentes descobertas da ciência, ainda não avaliada mais profundamente em termos éticos e de segurança mundial, ligou-se ao Projeto Genoma Humano, que permitiu decifrar o código genético.
Considere-se, entretanto, que como em tudo que o homem faz e cria, o Projeto Genoma pode, através de seu uso inadequado ou adequado, tornar reais as mais terríveis projeções antevistas através da ficção ou fazer da vida uma travessia mais feliz. Na verdade, muita coisa inusitada para nossos atuais padrões morais e para nossa compreensão já vêm acontecendo e, de vez em quando, uma brecha aberta na imprensa nos mostra, por exemplo, a aberração de um rato como uma enorme orelha acoplada no corpo.
Na verdade, o Projeto Genoma possibilita desde a criação do Frankestein moderno até a fabricação de órgãos para transplante. Poderemos, inclusive, no futuro, escolher a cor da pele e dos olhos dos nossos filhos e fazer com que eles nasçam saudáveis, livres das doenças que hoje ainda castigam o mundo e sem anomalias congênitas. Ao mesmo tempo, o que parecia impossível pode se realizar: viveremos sem dor e sempre jovens, e a vida humana se estenderá para além das fronteiras conhecidas da longevidade.
Assim, maravilhas podem acontecer se a arte e a ciência de manipular a vida forem postas a favor e não contra a humanidade. Entretanto, o mesmo homo faber que traz em si a capacidade de construir, contém em gérmen a aptidão de destruir, e justamente esse avesso da criação, feita conscientemente por ganância e má-fé, é que induz a espécie ao temor, a incerteza e a desconfiança diante do que as descobertas podem projetar no futuro. Isso é natural, fazendo parte dos mecanismos de defesa da criatura humana que sempre se precaveu diante do desconhecido. Acrescente-se, porém, que a ignorância da grande maioria dos indivíduos e as superstições daí geradas, sempre colocaram empecilhos aos avanços científicos, que acabaram de todo o modo se impondo de modo inevitável.
De qualquer maneira, se é absurdo um posicionamento radical contra o Projeto Genoma, que tantos benefícios pode trazer ao homem, causa certo assombro o fato de que as pessoas não estão se importando em discutir as profundas implicações que tal projeto trará sobre suas vidas.
Diferente dessa atitude é a que se coloca diante da questão dos alimentos transgênicos, em torno da qual se tece a mais flamejante polêmica, efetuada não só nos meios científicos e governamentais como na própria sociedade, onde consumidores indignados temem ingerir produtos geneticamente modificados, como se já não o estivessem fazendo.
A discussão acalorada sobre os transgênicos está se processando em vários países e, como não poderia deixar de ser, também no Brasil. No nosso País, enquanto o governo se perde em posições contraditórias diante dos alimentos geneticamente modificados, falta à população informações mais precisas sobre, por exemplo, o impacto ambiental, os riscos ou as vantagens dos transgênicos.
Já a sociedade, mesmo sem conhecimento aprofundado sobre o tema, agita-se a partir de temores muitas vezes infundados e fomentados sobre divulgações sensacionalistas, enquanto representantes de associações ligadas ao meio ambiente se posicionam contra as inovações trazidas pelos OGMs na alimentação.
Na confusão formada assistimos a Comissão Técnica Nacional de Biosegurança (CTNBio) autorizar a importação de milho transgênico, mesmo diante da proibição da Justiça Federal com relação ao plantio, a importação e a comercialização desse tipo de produto sem prévio estudo de impacto ambiental.
Enquanto isso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, primeiro afirma que manterá no mercado os OGMs, e poucos dias depois manda retirá-los. Já a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência defende a necessidade de rotulagem e de estudos prévios sobre o impacto ambiental, apesar de em princípio ser favorável a novas tecnologias na área, conforme informou Washington Novaes em recente artigo no O Estado de S. Paulo.
De todo modo, é preciso lembrar um aspecto fundamental: o Projeto Genoma, que diminui doenças e anomalias genéticas e talvez possa eliminá-las no futuro, terá como a principal consequência o prolongamento da vida humana. Portanto, sobre a terra seres mais saudáveis viverão trinta anos ou mais, enquanto outros estarão nascendo. Obviamente, todos terão de ser alimentados, e como alimentar toda essa população longeva? Possivelmente a resposta a esse crucial dilema esteja nos transgênicos. E esse aspecto não está sendo avaliado com o devido aprofundamento que merece.
Gostaria finalmente de fazer, diante de um tema que demanda ao mesmo tempo cautela e objetividade, as seguintes indagações: futuramente você concordaria em modificar geneticamente seu filho para, por exemplo livrá-lo da diabetes? E concordaria em lhe dar alimento transgênico para que ele possa usufruir de uma longa vida?
Lembremos que em breve teremos uma população mais longeva e, diante desse novo expoente populacional, inevitavelmente deverá haver um aumento do estoque de alimentação, sendo que o Brasil é o único país do mundo onde há espaço para produzir pelo menos quatro vezes mais alimentos. Já é hora, portanto, de discutir racionalmente este assunto do qual depende nosso futuro.
- PEDRO BRANCO é agrônomo e diretor de Atividades Agrícolas da Sociedade Rural do Paraná





