Walmor Macarini
Em artigo anterior escrevi que a violência maior está nesta política governamental que contempla os traficantes do dinheiro com a permissividade para operarem juros assassinos – falamos, obviamente, dos bancos – dessa forma enriquecendo-se mais e mais, enquanto as empresas são levadas por eles como paus-de-arrasto, atadas pelas dívidas que as conduzem ao desespero e ao fechamento, gerando crise, desemprego e miséria.
Agora lê-se nos jornais que as reservas dos bancos cresceram, desde o início do Plano Real, saltando de R$ 8 bilhões para R$ 26 bilhões, com seus balanços demonstrando que eles estariam transformando os monumentais lucros justamente nessas reservas (destinadas a enfrentar os inadimplentes), com isto pagando menos impostos.
Já escrevemos que tão nefastos quanto os traficantes de drogas – agora objeto de devassas e prisões – são os traficantes do dinheiro. Porque os bancos brasileiros não fazem senão traficar dinheiro, transformando-o não em instrumento gerador de desenvolvimento e riqueza, mas em mercadoria, a servir à causa criminosa da usura. Ou não será um delito lesa-pátria os bancos pagarem 1% pelo dinheiro do povo (via caderneta de poupança) e cobrar 10% por este mesmo dinheiro, quando o emprestam? Por que o dinheiro do povo vale menos que o dinheiro do banco?
Se os traficantes de drogas estão corroendo a vida dos nossos filhos – porque têm sido eles as maiores vítimas – os traficantes do dinheiro estão corroendo a vida dos chefes de empresas e dos chefes de famílias, porque esta desastrada política monetarista de FHC e de seu superministro vem gerando a desestruturação dos negócios, com o consequente desemprego e toda a miséria social daí decorrente, aí incluído o aumento da violência. A crise brasileira se deve ao elevado custo do dinheiro, agente fundamental no processo de desenvolvimento econômico mas que desapareceu do meio circulante e foi confiscado por um único poder. Vivemos hoje a ditadura desse poder, um poder respaldado pela ditadura do poder político do presidente da República e de seu todo poderoso superministro.
Com suas CPIs, os guardiães da pátria devem, sim, investir contra o crime organizado, narcotráfico incluído, mas por que não atuar também sobre essa máfia que é o sistema financeiro e essa corrosiva política monetarista do governo?
Para não falar dos outros bancos, viu-se agora que o Banco do Brasil registrou em setembro passado o exorbitante lucro de R$ 502 milhões. Repetindo, para não parecer erro gráfico: R$ 502 milhões. Algo atípico, segundo a diretoria do próprio banco (em outubro, diga-se, foram ‘‘apenas’’ R$ 49 milhões). Nem as minas do rei Salomão! Essa extravagância de lucro não é virtude, nem se tratando de banco oficial e nem de banco algum.
Enquanto isso, o presidente FHC vai à Europa. Tão-somente para exibir-se, porque nada mais o agrada do que se sentir (e falar) diante de seus companheiros da ‘‘cúpula dos reformistas’’ – o inglês Tony Blair, o alemão Gerhard Schroeder, o francês Lionel Jospin e o italiano Massimo D’Alema, naturalmente capitaneados por Bill Clinton.
Bom que tenhamos um presidente que fala inglês, francês e espanhol. Mas bom seria que falasse também o português, a língua da caboclada brasileira, e deve ser por não a falar e nem a entender que não visita o Brasil... O tema da cúpula foi ‘‘a nova economia, igualdade e oportunidade, democracia no século 21, valores, direitos e responsabilidades’’. O nosso FHC adora falar desses temas. De falar, não de adotar.
E viram como o governo agiu rápido no episódio da (quase) invasão da fazenda do presidente da República? Sem entrar no mérito, pois não se deseja que ninguém saia atirando contra sem-terra e suas mulheres e filhos, o que se espera é que, nessa questão do problema agrário, o governo também aja rápido, porque já passa da hora. Não adianta FHC ir à ‘‘cúpula dos reformistas’’ e fazer um belo discurso sobre igualdade e oportunidade, quando deixa exposta esta chaga da questão agrária brasileira. Se o MST é um movimento guerrilheiro, com ramificações internacionais, que mobiliza tão vultosas somas que por si sós já possibilitariam assentar todos os sem-terra, a verdade é que o problema dos colonos sem terra (dissemos colonos) tem que ser resolvido, porque ele está aí e não arredará pé. Então, é um problema da Nação brasileira, e a Nação é comandada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Se é verdade que os líderes do MST querem terras próximas dos núcleos urbanos, porque assim o movimento fica visível e com maior poder de impacto e de barganha, sabendo ademais que a autoridade hesita em contra-reagir diante de tantas testemunhas, também é verdade que um projeto bem fundamentado, em boas terras, seduziria os verdadeiros camponeses a aceitarem ir para qualquer lugar. Mas o governo do teórico FHC não tem um projeto nem para a agricultura já secularmente assentada, imagine-se para estes sem-terra...
Só os lucros mensais do nosso maior banco oficial já bastariam para resolver o problema dos sem-terra, mas parece que o banco esqueceu de sua função social. E o nosso presidente-viajante não sabe de nada, porque só fala as línguas diplomáticas e não visita o Brasil...

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