Os terráqueos estão chegando!
Os terráqueos estão chegando!
O otimista proclama que vivemos no melhor dos mundos. O pessimista teme que isto seja verdade.
Luiz Eduardo Cheida
Os marcianos estão chegando! São verdes, cabeça e olhos imensos, armas em punho e descem, em ordas, de reluzentes discos voadores. Os terráqueos, em polvorosa, correm desvairadamente, atropelam-se, gritam em histeria e enlouquecem diante do pesadelo em que a anunciada invasão se transforma.
Nesta paranóia viví e vivemos, durante as últimas gerações, onde gibis, seriados na TV e demais informações não-científicas profanaram o imaginário popular. Éramos sempre as vítimas, atadas ao planeta Terra, naufragadas e à deriva, na imensidão do espaço desconhecido. O universo, perigo iminente, onde monstros desconhecidos espreitavam, à espera da primeira oportunidade de exercer seu domínio sobre nós.
Não foi à toa que Orson Welles, colocou em pânico boa parte dos Estados Unidos ao narrar, no rádio, com tanto realismo a Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. Naqueles idos de 1938, os incautos ouvintes acreditaram piamente que uma guerra planetária acabara de estourar. E foi preciso, naquele tempo, muita conversa, paciência, comprimido e terapia para recolocar as coisas em ordem.
Hoje, um ambicioso projeto americano, de cerca de 140 milhões de dólares, colocou um robô na superfície de Marte, o primeiro passo para a, já anunciada, expedição humana ao planeta vermelho. Os mesmos americanos, que chegaram à Lua, prenunciam a chegada do homem em solo marciano, sem armas e discos voadores, para dentro dos próximos anos, após alguns bilhões de investimentos. Bastou a constatação destes gastos para que minha filha, inconformada, viesse ao meu encalço com as mesmas indagações que, por anos a fio, também me perseguiram: se temos tantos problemas sociais ainda não resolvidos, que utilidade tem jogarmos tanto dinheiro fora em aventuras que só reafirmam o egocentrismo humano e longe estão de resolverem nossas infinitas contendas neste finito planeta que habitamos?
De fato, pensando assim, os gastos são mesmo desnecessários. Todavia, queiramos ou não, é preciso admitir que a resolução de nossas chagas sociais não deixam de acontecer pela escassez de recursos. Da mesma forma que existe fome no mundo não porque falte alimentos e sim porque sua distribuição é irracional e obedece a uma lógica política e não a critérios humanitários. Das relações conflituosas de muitos é que nasce o lucro de uns poucos. Não é o déficit ou superávit financeiro quem reordenará o planeta e sim a vontade coletiva na erradicação da miséria humana. Ou seja, um outro patamar de objetivos e prioridades que considere a espécie humana acima das nações e dos privilégios dos mais astutos.
Embora, isso seja fruto tão somente de árdua luta e não apenas da espera pacienciosa dos que sofrem e, mesmo concebendo que conquistas tecnológicas incrementam o poderio de uma nação, principalmente de países já avançados como os Estados Unidos, deixo de lado minha antiga lenga-lenga e torço, sinceramente, para que expedições semelhantes tenham sucesso.
Cientificamente, nosso Sol tem mais 4 bilhões de anos, antes de apagar-se totalmente. É um tempo menor que a idade da Terra. O seu declínio trará o fim de qualquer possibilidade de vida, dentro de nosso sistema solar, inclusive a nossa. É preciso a exploração de novos mundos, também por isso. Embora Marte esteja dentro de nosso sistema solar, sua conquista é um passo gigantesco para a compreensão de leis universais que ainda desconhecemos. Quem sabe além da física, química, astronomia e outras novas leis, aprendamos, ao olhar nossa Terra, grão de areia vagando no espaço, a maior delas que é a lei da solidariedade. Da mesma forma que, ao olharmos nosso passado, os problemas insolúveis da época, nos parecem agora tão fáceis de resolver. Talvez, tirando a cabeça do problema, possamos ver, de fora, quantas soluções para eles existem.
A civilização humana caminha. E, a evolução, embora não dê saltos, também progride. Hoje, quem sabe, sejamos nós os marcianos de ontem, mesmo sem armas, chegando a um novo planeta, com a missão histórica de conquistarmos a nós mesmos, tarefa difícil, nesta doce arte que é viver.
Assim, sem pânico, possamos enfim brindar: os terráqueos estão chegando.
E nada mais.
- LUIZ EDUARDO CHEIDA é ex-prefeito de Londrina





