Os temores de Maciel
A possibilidade de a eleição presidencial de outubro ser decidida no primeiro turno é quase tão remota quanto eram as chances de o Brasil chegar até aqui nesta Copa do Mundo. Mas existe. Os petistas trabalham com euforia nesse rumo. Os tucanos são pura preocupação quando se referem a esse assunto. Esta semana, no entanto, os tucanos respiraram aliviados quando a pesquisa do Instituto Sensus mostrou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na casa dos 36% e José Serra com 20%. Comemoraram até os dois pontinhos a mais de Ciro Gomes.
O vice-presidente Marco Maciel (PFL), político experiente, está nesse grupo. Ele trabalha hoje pela campanha tucana como quem joga xadrez: sempre pensando no próximo lance. E diz em suas conversas que é preciso trabalhar hoje com a pior das hipóteses, a de que a eleição pode se decidir no primeiro turno. Por isso, é preciso, segundo ele, que se crie um clima para a eleição em dois turnos. Ele não diz abertamente, mas seus amigos contam que o Brasil se acostumou muito mal com duas vitórias de Fernando Henrique no primeiro turno.
A outra preocupação do vice-presidente é com a economia. É espantoso como Maciel, um político que sempre mede as palavras, fala com desenvoltura sobre esse tema: Não é a primeira vez que sofremos ataques especulativos. Muita gente ganhou dinheiro com a inflação. Há pessoas que, com esses ataques especulativos de agora, querem voltar ao passado que lhes interessa, comenta ele, num raro momento de ataque.
A preocupação de Maciel se justifica. Afinal, ele, como bom nordestino, sabe que existem muitas doutoras Ednas espalhadas pelo Brasil. A doutora Edna nasceu no Recife. A vida inteira votou no PFL. Nas duas últimas eleições, foi Fernando Henrique de olhos fechados. Mas agora, pela primeira vez, diz que votará em Lula. Ela está irritada com o mercado financeiro, que tenta impor Serra, louca da vida com a alta do dólar e desiludida com inaugurações de obras incompletas e festas para recepção de equipamentos que não funcionam. Por tudo isso, quer mudança.
Maciel também se preocupa com gente que, como a doutora Edna, muda de lado. Mas, como nunca perde a fleuma, o vice-presidente logo se recompõe com um tenha nervos!, expressão que no bom pernambucanês significa tenha calma. Ainda faltam cem dias para a eleição. Eleição é feito jogo da Copa do Mundo: não dá para querer resultado com cinco minutos de jogo, conclui.
DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília





