Palavras de governantes são no mais dos casos apenas palavras. O ministro José Dirceu, da Casa Civil, periodicamente ocupa a tribuna e fala aos brasileiros, mas divaga em sonhos que ele imagina serem realidade e nos quais certamente acredita. O vasto imaginário do ministro, publicado nos jornais de ontem, sustenta que ''a gestão Lula é reformista''. Ocorre que, nos dois primeiros anos do governo petista, nenhuma reforma aconteceu, tanto que, em seu discurso, José Dirceu não tinha em mãos nenhuma delas para citar. Se é certo que as grandes mudanças precisam passar pela discussão e aprovação do Congresso e seria de esperar que as respectivas propostas tivessem origem, também, no Parlamento, porque ali habitam os legisladores nada aconteceu de expressivo nesse sentido, nem por iniciativa da comunidade parlamentar e nem do Palácio do Planalto. Veja-se que a reforma agrária se arrasta e não tem sequer um projeto que se possa considerar científico e consistente; as reformas tributária e do sistema financeiro estão entre as prioridades nacionais, porque o Brasil é o país campeão no ranking dos maiores pagadores de impostos, mas não há em debate projetos nesse sentido; fala-se da reforma política e da reforma do Judiciário, mas não se conhece proposições a respeito; e a reforma da legislação trabalhista, desta não se vê sequer um sinal de que algum parlamentar ouse tocar no assunto, pelo temor do patrulhamento sindical, capaz de grande alvoroço. Também não houve, neste governo, a diminuição dos gastos da máquina pública que é burocrática demais e emperradora do desenvolvimento, gastadora e desperdiçadora e no geral o serviço oficial de atendimento ao público funciona mal. Só alguns setores andam bem, mais pelo ideal do pessoal envolvido (caso, por exemplo, dos pesquisadores) do que pelo estímulo governamental. Apregoar ''gestão reformista'' sem mostrar as reformas, ou no mínimo projetos delas, só contribui, cada vez mais, para a descrença no governo, que, a partir de 1º de janeiro, entrará em contagem regressiva. Se, dois anos atrás, a vigorosa força da arrancada em que a nação marchou junto, esperançosa não fez progressos e ficou apenas no poeirão da largada, o povo já não está acreditando muito no fôlego do atual governo para alcançar algum troféu no restante da maratona. Simplesmente porque não há projetos. A propaganda precisa vir acompanhada de projetos, mas eles não existem, nem de parte do Governo e nem de parte do Congresso. (Louve-se que a Lei das Falências foi aprovada). Foi um evento de expressão a subida do líder sindicalista ao poder, cavalgando o PT histórico de tantas críticas e de tantas propostas salvadoras, mas apenas o barulhento espocar de fogos, e depois o silêncio e a fumaça se dissipando. José Dirceu, petista de vanguarda, continua no devaneio de aludir a reformas da gestão Lula que não aconteceram. Se, em muitos setores da vida nacional, o Brasil-cidadão avança (entenda-se o Brasil dos brasileiros que se arrojam e produzem), isto não é por mérito governamental.

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