Os sem-lei contra os sem-moral
A frase-título é do chargista deste Jornal e define bem o caso da destruição que o Movimento pela Liberação dos Sem Terra (MLST) fez às instalações da Câmara Federal. Foi mais um ato de violência das facções de sem-terra, que agem fora da lei e da ordem, mas o alvo é também uma instituição que abriga em seu quadro desacreditadas falanges, capazes de atos idênticos em forma de assalto do dinheiro público e de outras práticas criminosas. O MLST invasor defende os seus presos como os PCCs defendem os seus, mas fazem isto também os parlamentares ao proteger os colegas acusados de corrupção e blindar a companheirada enquanto houver jeito. Atos de vandalismo precisam ser contidos, mas chega um ponto em que a opinião pública não sabe de que lado ficar, porque se repudia os atos violentos dos sem-terra, tem a mesma reação perante os políticos. O episódio recente ocorrido em São Paulo, que resultou em mais de uma centena de mortos, a invasão destruidora de agora à Câmara dos Deputados e as denúncias e os muitos casos comprovados de corrupção no seio dos poderes, formam uma só substância e levam à corrente de descrença do povo às instituições. Mais de 400 vândalos foram presos por conta do quebra-quebra da Câmara, mas os processos contra parlamentares se arrastam por meses, e prisões aí são escassas. Quando isto acontece, não chega a tempo de esquentar as camas das celas. Não é nada confortável para um povo conviver com esse estado de coisas, e não o engrandece o fato de como às vezes acontece aplaudir a violência e os danos ao patrimônio público só porque as pessoas visadas são homens públicos. Deveria ser diferente, ou seja, que parlamentares, ocupantes de funções executivas, gente de repartições públicas, dirigentes partidários, não figurassem em listas de delinquentes. O mal é que essas figuras desagregadoras acabam por lançar no descrédito também as partes sãs desse meio, e isso leva a perigoso enfraquecimento das instituições, o que pode induzir os cidadãos a derivar para a desobediência civil. No caso do MLST, a reforma agrária tambem figura em seu ideal de luta, e a manutenção desse estado de tensões se deve ao descaso dos governos, que não se dedicam a fundo à solução do antigo problema da terra. E não só com os que não a têm, mas também dos que a possuem e enfrentam grandes dificuldades para sobreviver. O momento presente da lavoura que o diga. Explosões que ocorrem, como esta de agora e outras tantas, são sempre resultantes de negligências governamentais. A idêntica violência praticada no ambiente da administração pública induz a reações da mesma intensidade. Um programa consistente de reforma agrária e agrícola eliminaria movimentos reivindicatórios violentos, como a quebradeira que ora aconteceu, assim como dos agricultores bloqueando ruas e estradas e agências de bancos oficiais. Uma solução mais inteligente visando a ressocialização dos presos diminuiria as tensões nos presídios, e episódios sangrentos como os ocorridos em São Paulo teriam sido evitados. Um programa de autêntica reforma agrária eliminaria a existência dos colonos sem-terra. E um expurgo no Congresso e uma melhoria no padrão de moralidade das instituições públicas, assim como a tomada de medidas consistentes para resolver as grandes questões nacionais, resultariam numa nação mais justa, mais segura e mais pacífica.





