Sexta-feira, dia 25 de julho, multidões de ‘‘sem-alguma coisa’’ fizeram manifestação contra o governo federal. Segundo a imprensa, em 20 Estados cerca de 40 mil pessoas, entre sem-terras, sem-tetos, sem-salários, sem-reajustes salariais, sem-garantia de aposentadoria especial, organizadas por movimentos institucionalizados, centrais sindicais e outros sindicatos, bagunçaram o coreto da ordem e progresso. (Bem, pelo menos tentaram.)
Para os que anunciavam que iriam ‘‘parar o País’’ deve ter sido uma enorme decepção. O máximo que conseguiram foi, de novo, e como sempre, atazanar pacatos cidadãos. A chateação maior aconteceu nas rodovias, bloqueadas por caminhoneiros, em protesto contra o fim da aposentadoria especial para motoristas de ônibus e caminhão. Em seis Estados os manifestantes conseguiram produzir cerca de 133 km de congestionamentos (‘‘Folha de S. Paulo’’, 26/07). Imagine, leitor: cidadãos que trafegavam por essas rodovias, a serviço ou a passeio, torraram (onde houve sol), alguns, durante cinco horas de espera em intermináveis filas. Cidadãos em férias, muitos se deslocando para São Paulo, Capital, por exemplo, com contrato firmado com empresas de transporte aéreo, para cumprir outro contrato com uma agência de turismo, que poderia ser um desses ‘‘pacotes fechados’’ ao Exterior, ou ao Nordeste. Cidadãos recém-casados, que firmaram contrato de sociedade conjugal na noite anterior e que estavam em viagem de lua-de-mel, com despesas pagas, depois de terem suado a camisa para descolar uma semana de folga no trabalho. Cidadãos que tinham agendado reuniões importantes, daquelas que são marcadas com um mês de antecedência, na qual estariam presentes executivos de empresas nacionais e estrangeiras, a fim de fecharem importantes negócios. Cidadãos viajando com destino a uma cidade grande, com cirurgia difícil -talvez urgente - marcada num hospital movimentadíssimo, com cirurgiões competentes e ocupadíssimos. Cidadãos cumprindo contrato de transporte de mercadoria. Todo esse pessoal ficou na mão, literalmente. A maioria presumivelmente perdeu tempo, compromissos e rompeu contratos.
Em Curitiba, segundo esta Folha do Paraná, o protesto contou com cerca de 1,8 mil manifestantes (conforme os líderes do movimento - para a Polícia Militar eram 500). Manifestação pacífica, sim, no sentido de desarmada - porém truculenta na metodologia. A multidão se concentrou no Centro Cívico, deixando o trânsito enlouquecido. Quem tinha contrato com prazo de pagamento de prestação vencendo no dia, em banco localizado nas proximidades, e deixou para última hora, lascou-se. Também se lascou quem tinha contrato de prestação de serviço com o dentista, com hora marcada para as 15h, e tinha de atravessar a região do paço dos três Poderes. Teve o mesmo azar quem era office-boy e estava dentro de um transporte coletivo, engarrafado no congestionamento, com a maleta cheia de entregas para fazer.
Os sindicalistas, os líderes profissionais desses movimentos, os militantes de partidos políticos de oposição não perceberam que essa estratégia só consegue angariar-lhes o ódio da população. Não aprenderam nada com a última greve dos petroleiros, reivindicatória de privilégios corporativistas, que impôs aos cidadãos o racionamento do gás de cozinha -e demoradas filas.
Obviamente, vivemos uma democracia e o direito de manifestação está garantido. No entanto, não se trata de um direito absoluto, praticado de qualquer jeito, contra quem quer que seja, e que se danem os incomodados. Não existem, na democracia, direitos sem limites. A manifestação dos grupos dos ‘‘sem’’ não pode ferir o direito constitucional de ir, vir, permanecer e ficar, do restante dos os cidadãos. Quantos eram os gritantes? 40 mil, num país de 150 milhões de habitantes. Quantos eram em Curitiba? 1,8 mil, numa cidade de 1,4 milhão de habitantes! É de se perguntar aonde anda o Estado, a tal ‘‘Nação juridicamente organizada’’, de Afonso Arinos, o Estado mantido pelos contribuintes, garantidor da convivência pacífica e ordeira entre desiguais, iguais perante a lei. Na democracia, o Estado deve garantir que o interesse de grupos não seja maior do que o interesse geral da Nação. Se o Estado não cumpre o contrato social com o povo, garantindo direitos individuais e liberdades públicas, o povo não tem mesmo como cumprir seus contratos privados.
Daqui a pouco, a próxima manifestação a dos 150 milhões de sem-Estado. E a estratégia não será a de bloquear via públicas, mas a de parar de pagar impostos.

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