Os rumos do Brasil
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de setembro de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Como ser fadado ao imediatismo, falta ao homem a percepção das mudanças que se processam a longo prazo. Nem mesmo as mudanças a médio prazo são visualizadas de forma mais lúcida. Cada qual vislumbra muito pouco do panorama geral, preferindo tirar proveito somente de sua situação e de seus interesses particulares. Apenas as mudanças a curto prazo podem ser em parte avaliadas, apesar de que seus efeitos dificilmente são pressentidos de forma mais clara pela maioria.
No plano da política, mudanças que acarretam novos rumos situam-se privilegiadamente na encruzilhada das eleições. Mesmo assim, sendo a política para o homem comum muito mais prazer lúdico, esfera das emoções e não da razão, quase ninguém pergunta qual rumo tomará o país se o resultado das urnas for esse ou aquele.
Some-se à essa irresponsabilidade cívica, a manipulação intensa e as técnicas de persuasão que são deflagradas com maior intensidade durante as campanhas eleitorais. Especialmente no intervalo entre um governo e outro, habilidosamente candidatos ''esculpem'' imagens favoráveis de si mesmos, jactam-se de possuir a fórmula mágica para salvar a Pátria de todos os seus males, oferecem-se magnânimos no altar do Estado prometendo imolar-se em benefício do povo.
O povo? O povo quer acreditar. Precisa acreditar. Diga-lhes que os duendes do último filme da Xuxa existem e, deliciados, acreditarão. A técnica para obter a credulidade é simples. Concentra-se na criação de mitos e na repetição de inverdades até a exaustão. Além disso, a crença repousa largamente na desinformação e no desconhecimento. Some-se a isso o fato de que o ser humano aprende, inclusive, através da imitação, e o poder estará assegurado para aqueles que demonstrarem maior capacidade de persuadir.
Simultaneamente, é fácil fabricar a retórica vazia das ideologias mortas, inverter os fatos, distorcer a realidade, propagar inverdades de acordo com interesses em jogo. Assim, está na moda a crítica sem nexo ao que alguns chamam de neoliberalismo, que na visão terceiro-mundista é associado à corrupção, aos maus políticos, à nefasta condução da coisa pública. Por má-fé eleitoreira ou total desconhecimento do que seja liberalismo, os discurseiros antiliberais não se intimidam em excursionar em temas e conceitos que lhes foge inteiramente ao conhecimento. Surge então a barafunda maniqueísta dos neosocialistas, que confundem socialismo com ''social'' (eufemismo muito em voga para designar as panacéias oficiais de engambelação dos pobres) e não fazem distinção entre o socialismo da social-democracia e o socialismo da vertente marxista.
De todo modo, a política é cheia de imprevistos e reviravoltas que não obedecem aos desejos de poder dos neosocialistas. E assim, no reino das conjecturas, do qual faz parte também a política, estão emergindo nesta conjuntura outros candidatos à Presidência da República. Por exemplo, o imbatível Silvio Santos, ou o governador Geraldo Alckmin, ou uma dobradinha dos dois como decorrência do final feliz do sequestro que abalou o país na semana passada. E o que dizer de Roseana Sarney? Será que os adeptos do ''social'' condenariam os acima citados pelo crime de neoliberalismo explícito?
De qualquer modo, estamos longe de ser um país liberal, sistema onde a democracia se associa ao desenvolvimento econômico. Se tivéssemos seguido o rumo do liberalismo, sem dúvida não teríamos tanta dor-de-cotovelo dos Estados Unidos e poderíamos ser, quem sabe, como o Canadá, a Austrália e demais países do Primeiro Mundo. Mas como entre nós há uma tendência para se acreditar nos duendes do social, o perigo é enveredar por rumos nada promissores. Depois, não adianta por a culpa no neoliberalismo.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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