Roubos praticados entre crianças, no recinto das escolas, são atribuídos mais às traquinices típicas da infância e da adolescência, e não constituem fato novo. Mas o grave é que essa prática vem se intensificando, ao menos nos estabelecimentos escolares em Londrina, conforme reportagem de ontem deste Jornal. Dinheiro, cartão de passe de ônibus, agasalhos, material escolar, telefones celulares, são roubados entre os próprios colegas, com certeza das mais diferentes classes sociais. Os diretores das escolas recomendam cuidado na guarda desses valores, mas é de se esperar que lhes passem, antes de tudo, o ensinamento de que não devem apropriar-se do que não lhes pertence. Se a recomendação para os cuidados pessoais é válida, mais importante é uma rigorosa disciplina que realce os valores da honestidade, da solidariedade, do companheirismo que, com toda certeza, terão grande valia para eles quando forem adultos e começarem a administrar bens de maior valor, entre eles bens alheios. Ensinamentos e exemplos que os escolares (e as crianças em geral) absorvem na infância e na adolescência serão sempre lembrados e passam a ser comportamentos regulares de vida. Se não se pode garantir que isto acontecerá com todos, sabe-se que os exemplos dos tempos de meninice e juventude são fundamentais na formação do indivíduo. No passado, a pregação e o culto da honestidade geravam pessoas igualmente honestas. O advento dos desenhos animados, primeiro em forma de gibis importados e traduzidos no Brasil (que famílias e escolas já condenavam) e depois pela televisão, certamente ajudou a disseminar práticas de luta e competição, e paralelamente a isso o cinema (também importado, sobretudo de Hollywood), que seguiu a mesma linha. A frase-chavão de que o Brasil foi vítima de um colonialismo cultural tem fundamento, porque isto se intensificou e hoje se opera também por via da internet e dos videogames, cada vez mais infernais. Hoje, até para livrar-se da canseira que os filhos pequenos proporcionam aos pais, estes os colocam diante da tevê e os empanturram de desenhos e games, que no mais dos casos difundem disputas e práticas violentas que é o que as crianças mais apreciam. Isto e mais a pouca qualidade das escolas quanto ao ensino do bom comportamento e de práticas sadias de convivência humana, certamente ajudam na indução a esses pequenos roubos entre colegas, como foi mostrado ontem pela reportagem. Tudo isto resulta num culto a necessidades, mesmo que supérfluas, mas por causa delas muitos jovens e depois adultos irão disputá-las, e para isso farão até guerras. Combater os efeitos é sempre mais difícil do que eliminar, ainda cedo, as causas. Ensinar agora a cuidar dos objetos pessoais, ao invés de passar às crianças o ensino intensivo dos valores da honestidade, é ter no futuro que ensinar as pessoas adultas a se armarem e a botar tranca nas portas, quando melhor seria a par das medidas necessárias de proteção ensinar-lhes o partilhamento e a solidariedade.

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