Os riscos de uma recessão mundial
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de setembro de 2001
João Rezende 
Os desdobramentos dos últimos acontecimentos nos EUA ainda estão por vir, principalmente no campo da economia. Indicadores econômicos dos organismos financeiros internacionais FMI e Banco Mundial, já apontavam para uma desaceleração da economia em nível mundial. A preocupação é tanta que os Bancos Centrais dos países desenvolvidos, rapidamente, anunciaram cortes nas taxas de juros, momentos, após o ataque aos EUA.
O banco central americano cortou os juros em mais de dois pontos percentuais. Os países que compõem o G-7 (EUA, Alemanha, Japão, Canadá, Itália, França e Inglaterra) responsáveis hoje por 70% do comércio exterior sabem das implicações de uma recessão em nível mundial.
A questão fundamental neste momento é que uma crise em escala mundial alimentará o desemprego também nos países que compõem o G-7. Como consequência crescerá a intolerância em relação aos trabalhadores imigrantes, fortalecerá os partidos conservadores, aumentando sensivelmente os discursos nacionalistas.
Neste momento em que a grande preocupação se concentra na volta da normalidade nos mercados financeiros e na manutenção dos fluxos comerciais, variáveis fundamentais do processo de consolidação da economia globalizada. O recrudescimento das relações políticas de cunho nacionalista seria como um contra-ataque dos que já questionam o modelo atual.
Os riscos de uma conjuntura como essa, detonada a partir dos ataques aos EUA, que aparentemente não guarda relação ideológica e nem de Estado, pode empurrar o mundo para um conflito em escala mundial. A responsabilidade dos países desenvolvidos é deter o crescimento dos setores internos em seus países que sempre se mostraram intolerantes e fechados as questões dos países do terceiro mundo.
Na minha opinião a liderança deste processo cabe muito mais à
social-democracia européia do que ao conservadorismo que tomou conta dos EUA, a partir da eleição do George Bush. Não há como negar que boa parte do
antiamericanismo espalhado pelo mundo foi reforçado por posições nada democráticas do governo americano em relação às questões étnicas e religiosas dos países menos desenvolvidos.
Uma abertura no tocante as relações políticas apenas minimizaria o grau e intensidade dos conflitos. Existe a necessidade de mudanças na atuação dos organismos de financiamento internacional como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, que deveriam desenvolver programas com mais flexibilidade do que os implantados até agora.
Esta contradição é visível quando se olha a situação brasileira. Enquanto os países do G-7 anunciam reduções nas taxas de juros internas, nosso Banco Central não consegue reduzir na mesma proporção e, continuamos a amargar a terceira maior taxa de juros do planeta. O Fundo Monetário Internacional vem financiando a economia brasileira desde a década de 80. Os programas e ajustes patrocinados pelo FMI, não têm duração suficiente para sustentar taxas razoáveis de crescimento, as crises econômicas são sempre iminentes.
A apropriação desigual do desenvolvimento tecnológico é outro fator preponderante para o aprofundamento das desigualdades regionais. No processo de globalização, países menos desenvolvidos não conseguem obter aproveitamento dos enormes avanços verificados em diversos setores da ciência.
Embora de difícil articulação, a maturação de um novo padrão de desenvolvimento mundial, que pudesse induzir uma melhoria das taxas de crescimento e dos índices de qualidade de vida para pelo menos 2/3 da população do planeta, serviria para afastar conflitos. Muito embora, e a história mostra isso, a concentração do poder político e econômico são os traços mais marcantes da humanidade, e as alterações no processo de desenvolvimento econômico e social, podem levar décadas, ou mesmo séculos.
É vital que os países, ditos ricos, não só trabalhem melhor em suas relações na política internacional, como abram espaço para que os fluxos comerciais e tecnológicos possam ser apropriados pelos países menos desenvolvidos. É preciso desenvolvimento também para as economias nacionais. A globalização não pode significar apenas a hegemonia dos grupos e empresas dos países centrais.
- JOÃO REZENDE é economista e ex-secretário da Fazenda de Londrina


