A Vale do Rio Doce está sendo privatizada porque é lucrativa. E porque é lucrativa pode ser vendida. E porque gera lucros vale 10.3 bilhões de reais. Mas o que vem intrigando as pessoas que estão acompanhando o seu processo de privatização é o fato de a Vale ter hoje como valor mínimo de leilão apenas 10,3 bilhões de reais e não os 14 bilhões que valia há três anos nas bolsas de valores. É preciso pelo menos tentar explicar as razões dessa diferença. Será apenas pela queda da importância do minério de ferro como matéria-prima essencial?
Arrisco dizer que um dos motivos deva ser a baixa lucratividade do investimento. Mas a Vale é ou não é lucrativa?, perguntarão. Sim, mas a lucratividade da companhia nesses 46 anos mal conseguiu repor o capital que os acionistas aplicaram nela. Apesar disso, a companhia é a maior produtora e exportadora mundial de minério de ferro, maior produtora de ouro da América Latina, maior transportadora de carga por via férrea do Brasil e maior geradora de divisas para o país. Mas, claro, poderia ser muito mais.
Essa é, portanto, uma questão que justificaria a depreciação do valor de venda. A outra questão pode estar relacionada com a própria perspectiva de privatização: incertezas quanto à identidade de seus novos controladores e a natural retração dos agentes de mercado, pesados investidores, que não exercerão pressão para levantar o preço, já que são potenciais participantes do leilão.
Resta ainda comentar a expressiva série de restrições impostas pelo edital de privatização da companhia, para atender às chamadas garantias estratégicas e de soberania nacional. É certo que cada restrição provoca redução no preço e limita o número de investidores interessados em disputar seu controle. Essas restrições incluem as golden shares, que são de propriedade da União, tanto para a Vale, quanto para a sociedade que vai concentrar os novos controladores, a SPE (Sociedade de Propósitos Específicos):
De quebra, seus empregados terão direito a 10% das ações da União ou 5,1% do capital total. Tudo isso, é claro, tem seu preço e é considerado pelos futuros donos. Mas é a regra do jogo democrático, que resultou nesta modelagem de venda.
O fato é que a Vale precisa ser privatizada. Não para abater a dívida do país, já que a parte que caberá ao estado - 3 bilhões de dólares - é irrisória, diante dos portentosos 160 bilhões de dólares do total da dívida interna. Mas porque a Vale precisa de investimentos. Como estatal, esses recursos teriam que ser retirados do orçamento da União, prejudicando áreas como educação, saúde e segurança, estas sim, estratégicas e notadamente de responsabilidade do estado. Ainda como estatal, padeceria do mal comum a todas elas: foram, são e serão sempre utilizadas como moedas de troca, seja por interesses econômicos - mediante a administração de tarifas - seja por interesses partidários. Claro, os 3 bilhões de dólares de investimento direto que o Banco Central do Brasil vai contabilizar ajudarão, isto sim, na melhoria da nossa deficitária balança de transações correntes.
Privatizada, a Vale certamente vai render polpudos lucros àqueles que adquirirem suas ações nas bolsas. Tem sido assim com todas as outras empresas que foram privatizadas. Quem comprou ações da Usiminas, da Companhia Siderúrgica Nacional ou da Light colheu os frutos da decisão e embolsou até 100% de lucro em menos de uma ano. Com a Vale não será diferente. Em mãos privadas, ganhará mais eficiência, mais produtividade e muito, muito mais rentabilidade.

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