Os riscos da genética
Arlete Salvador
A conclusão do mapeamento do genoma humano, anunciado na semana passada, traz um grande deslumbramento com a capacidade científica do homem e infinitas dúvidas sobre o destino de informações tão importantes. Em tese, com o mapa do genoma humano em mãos, seria possível saber quais doenças um indivíduo está propenso a desenvolver, quais as atividades intelectuais em que mais se destacaria e, indo até mais longe na especulação sobre o futuro, todos os seus atributos físicos antes mesmo do nascimento.
Obviamente, essas possibilidades estão muito distantes. Por enquanto, o que existe é uma enormidade de dados sobre os genes humanos, os responsáveis por definir as nossas características, da cor dos olhos à aptidão para a música ou para a matemática, por exemplo. Todos os cientistas envolvidos nas pesquisas garantem que o objetivo desse trabalho é prevenir doenças e, se isso não for possível, tratá-las o quanto antes e melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Ainda é muito cedo para dizer até onde a ciência chegará e qual será, de fato, o uso que se fará dessas informações. No curto prazo, para o cidadão comum, a vida não muda. O câncer continua uma ameaça constante. O que o mapeamento do genoma humano oferece é apenas a esperança de que, um dia, essas doenças deixem deixem de ser uma sentença de morte.
As incertezas sobre o futuro dessas descobertas recentes, entretanto, têm outros componentes. A genética, aparentemente, passou a ser a grande responsável, se não a vilã, de tudo o que de bom e ruim acontece com o ser humano. Se desenvolveu ou não câncer, se cresceu até o padrão de altura para a sua idade, se os seus músculos adaptam-se ou não à determinadas atividades físicas. Tudo, hoje em dia, tem sido atribuído ao poder da herança genética.
O risco dessa linha de pensamento é cairmos num determinismo genético, que ignore por completo as condições de vida em sociedade e valores espirituais e culturais de cada indivíduo. Até meados dos anos 60, vivia-se uma situação contrária. Tudo que acontecia com os indivíduos era atribuído ao meio em que ele vivia. Nos últimos anos, passamos de um extremo ao outro. O que antes era visto apenas como resultado do meio social, agora é atribuído à carga genética. Até celulite virou responsabilidade dos nossos pais, ou melhor, das nossas mães.
É preciso reconhecer que os cientistas também têm dito que o ser humano é resultado complexo das duas coisas – da herança genética e da educação – no sentido mais amplo do termo, recebida ao longo da vida. Mas essa mensagem não tem merecido o mesmo destaque da primeira, talvez porque não interesse à indústria farmacêutica, uma grande financiadora dos programas de mapeamento do genoma humano. Enquanto se acreditar que todos os problemas humanos podem ser tratados com remédios, já que todos têm origem genética, melhor para eles.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília

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