Os ribeirões estão morrendo
Os alunos do Curso de Especialização em Análise Ambiental em Ciências da Terra, vinculado ao Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina, ao cursarem a disciplina Análise Ambiental de Áreas Impactadas, ministrada pela professora doutora Nilza A. Freres Stipp, estiveram fazendo um trabalho de campo junto ao lixão de Londrina e seu entorno, e junto à microbacia do Córrego Água das Pedras, dentro da cidade de Londrina.
Em relação ao Lixão e seu entorno, muitas reportagens têm sido elaboradas e publicadas pela mídia local, mas em relação ao Córrego Água das Pedras (e muitas outras nascentes dentro de Londrina) não se ouve falar muita coisa.
É sabido que a infra-estrutura urbana não acompanha o crescimento urbano acelerado, por diversos motivos: falta de recursos, vontade política, obras que não aparecem, entre outras. Isso faz com que os mais pobres sejam expulsos das áreas centrais para as periferias, as quais não possuem água e esgoto tratados, luz elétrica, moradia adequada, pavimentação asfáltica, galeria pluvial, entre outras.
Os que chegam à cidade, vindos de outros lugares, expulsos de seu lugar de origem devido à má qualidade de vida, chegam com o sonho de melhorar de situação, mas o sonho se torna pesadelo: não conseguem trabalho, ou se conseguem o que recebem não é o suficiente para a sua sobrevivência e a de sua família, não têm lugar para morar, pois o aluguel é caro e, logo, são também expulsos para a periferia não estruturada, ocasionando problemas sociais, na maioria das vezes não solucionados.
Além de sofrerem com os problemas sociais, essas pessoas contribuem com problemas ambientais, não por que querem, mas por não terem para onde ir, por não terem quem resolva seus problemas. Assim, ocupam fundos de vales, em assentamentos, onde podem ter a água, que servirá de alimento, e onde poderão lavar suas roupas e tomar seus banhos.
Essa situação é de grande impacto, não apenas social, mas ambiental e de saúde. A água consumida não é tratada. O esgoto é a céu aberto, na própria água que é consumida. Não existe mata ciliar para proteger a água. A vida no ribeirão não existe. As crianças brincam junto à água consumida e ao esgoto. Focos de doenças se instalam. Vetores de doenças também se encontram. O animal toma da água que é consumida e faz suas fezes nessa mesma água. As pessoas que são expulsas das outras áreas ali chegam para ocupar um novo espaço. Como não há, criam-no através de aterros que desfiguram o fundo de vale. Os ribeirões morrem e a miséria toma conta do lugar.
Assim é a microbacia do Córrego Água das Pedras. Pertinho de nós. Não é preciso ir a São Paulo ou ao Rio de Janeiro, muito menos aos países africanos. Essa realidade a temos aqui em Londrina. E, provavelmente, muitas outras pequenas microbacias da cidade possuem a mesma realidade. Tudo isso constatamos em nosso trabalho de campo. Qualquer cidadão que quiser ir até lá constatará o que acabamos de relatar.
Mas, o que queremos é chamar a atenção de nossa comunidade, de modo particular dos novos representantes do povo, recém-eleitos o prefeito e os vereadores para essas situações.
Mais que obras suntuosas que aparecem, as questões sociais, ambientais e de saúde devem ser solucionadas ou, pelo menos, minimizadas. Profissionais com competência para reverter esse quadro, nós os temos. Dinheiro muitas vezes não é o mais importante, mas sim a vontade e a criatividade. Muitas coisas são resolvidas com criatividade e sem muitos gastos. Os empresários que o digam.
Então, futuros administradores dessa cidade, será necessário arregaçar as mangas, ter vontade, contar com a comunidade e fazer acontecer. Soluções existem, só precisam ser despertadas. Não esperar para amanhã.
E, pelo que vimos nessa última eleição, o povo quer mudança, quer justiça, quer qualidade de vida, quer um ambiente saudável, quer um amanhã melhor.
- WAGNER LUIZ KRELING é geógrafo do Consórcio do Rio Tibagi (Copati) em Londrina





