Os ratos do Brasil - Mirian Guaraciaba
Mírian Guaraciaba
Fim de século, véspera do terceiro milênio, tempo em que, por motivos às vezes inexplicáveis, questionamo-nos incansavelmente sobre o presente, o futuro, as tragédias, as guerras, e a paz que nunca vem. Dúvidas, angústias e indignação nos assaltam diante de tantos descalabros.
Por que, na véspera do ano 2000, um bebê recém-nascido é mordido por ratos e morre de forma revoltante, deprimente, indigna, cruel? Ratos são sinônimo de lixo, sujeira acumulada, falta de saneamento básico, de assistência à saúde. Falta de responsabilidade de nossos governantes, má aplicação de recursos. Falta de emprego, salário decente, educação, informação. É atribuição direta dos governos local e federal dar condições mínimas de sobrevivência à população.
É da responsabilidade dos governantes a criação e a execução de uma política de saúde pública eficiente. Mas são omissos. Onde está a política de saúde pública, onde está o dinheiro para implementá-la? Perdem-se dinheiro, planos e projetos numa cadeia de equívocos que começam na definição de nossas prioridades.
Os governantes sabem que a população precisa de muito pouco para garantir sua dignidade. Trabalho, salário decente, rede de esgoto, água limpa, limpeza urbana, e o uso correto dos bilhões de reais que passam pelas mãos de governadores, prefeitos, presidente da República.
Se é tão pouco, por que não conseguem elevar o nível de vida da população brasileira? Não são capazes de salvar da falência bancos e banqueiros com dinheiro público? Por que não salvam nossas crianças? E não apenas dizimando ratos, que não são, seguramente, nossos piores inimigos.
Há dezenas de providências urgentes. Faltando meses para o fim de um milênio de grandes descobertas e avanços na medicina, pessoas de todo o mundo são vítimas de seus governos, de bombas, balas, violência e carros em alta velocidade.
Há perigo em cada esquina, e dentro de casa. Os governos demoraram tanto para impedir o crescimento da violência que o País se armou. Milhões de brasileiros guardam revólveres dentro de casa. São pais de família, jovens, crianças.
Armas prontas para serem usadas em defesa de sua casa, ou da vida, e contra a paz que parece fadada a ser apenas inscrição de camiseta. Números colhidos mostram-se piores que a triste guerra de Kosovo, que mata inocentes, de um lado e de outro, em nome de uma limpeza étnica que só Hitler seria capaz de fazer. Mais uma vez nos perguntamos, como isso é possível na véspera do terceiro milênio.
A nossa guerra particular é mais assustadora. No Kosovo, são os governantes que enchem as ruas de pólvora, Sérvia ou Estados Unidos promovem a destruição de famílias, crianças, velhos. No Brasil, somos nós que ameaçamos nossas próprias vidas, nossos filhos, nossos velhos.
Mais de 20% dos lares brasileiros têm armas em casa. Em Brasília, fala-se em 25% das famílias. Em todo o País, indica uma pesquisa do jornal O Globo, há 2 milhões de armas legais. Um quarto dessas armas - 450 mil - está no Rio de Janeiro.
As ilegais são 6 milhões. Muitas armas exclusivas dos militares - alguém está vendendo essas armas - contrabandeadas, roubadas. Nos últimos cinco anos, no Rio de Janeiro, quase 9 mil pessoas foram atendidas, apenas no Hospital Souza Aguiar, vítimas de armas de fogo.
Na Polícia Militar do Rio, 4% de seu efetivo foi baleado, e a cada 48 horas um soldado é ferido em conflitos com bandidos, no Rio. Em 1998, esses dados ficaram ainda mais tristes. Na PM, a cada quatro dias, um soldado é declarado incapaz de cumprir sua missão em decorrência de acidentes.
O governador Anthony Garotinho tem encarado o problema de frente no Rio. Os cariocas estão otimistas. Não deixa de ser uma boa notícia. A indústria da violência deve ser combatida com agilidade, rapidez e determinação. No Brasil dos ratos, muitos lucram com a morte. E a maioria, silenciosa, perde. Os filhos, a vida, a dignidade e a esperança.
- MÍRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília





