Os quintos do Inferno
No Brasil, à exceção de poucos privilegiados, quase todo mundo enfrenta apuros cada vez maiores, para merecer respeito e viver com um mínimo de dignidade. Acentua-se, dia a dia, o fenômeno da exasperação política dos brasileiros, principalmente os que, em função de seus cargos, devem dar exemplo de cordura e de zelo pelos direitos alheios.
Uma palavra em falso, embora sem más intenções; um olhar enviesado e casual; a cobrança de princípios líquidos e certos; a menor coisa, mesmo a crítica mais pertinente e cortês, deflagra reações de raiva exagerada, que nunca se viram com tal frequência no País.
O governador de Brasília fez ameaças aos adversários políticos e aos jornalistas que cumprem o dever de apontar seus erros. O governador de Pernambuco excedeu-se tanto quanto os policiais militares do Estado em greve marcada pela violência ao chamá-los de marginais. O governo federal, segundo testemunha a CNBB, descumpre o que promete aos sem-terra mas processa o MST.
As eleições para prefeitos, findas agora, com a realização do segundo turno eleitoral, destacaram-se pelas agressões entre opositores e pela defesa da força bruta, para resolver questões sociais que se agravam, por falta de empregos decentes ou de salários condignos e de políticas de assistência aos milhões de excluídos.
A decisão do STF, de reparar danos aos salários dos brasileiros, é verberada, na imprensa, por burocratas da economia, adeptos da regra segundo a qual os assalariados não deviam poder cobrar, judicialmente, os erros de governos anteriores. É a destruição não só da Justiça mas do próprio Direito, pela consagração da irresponsabilidade na governança do País por medidas provisórias.
Poderiam citar-se outros casos de incontinência politicamente raivosa, face aos limites da democracia, a que todos estamos obrigados, no interesse da boa convivência entre os brasileiros.
Num velho poema, que tem sete séculos, A Divina Comédia, de Dante, o poeta localizou os irascíveis nas águas lamacentas do quinto círculo do Inferno, ao qual, aliás, fora-lhe negado o acesso, por não estar morto e querer vagar pelo reino da morte. Em tempo: nessa geografia dos infernos, os que fizeram graves males sociais habitam o terceiro recinto do sétimo círculo, um lugar merecidamente inconfortável para os que não respeitaram os direitos de seus semelhantes.
O que importa, no caso das reações ruins, é que esse procedimento desrespeitoso implica divisão mais complexa do que o simplismo que dividia Florença, das belas simbologias de Dante, em guelfos e gibelinos. Hoje, o retrocesso democrático, por parte dos que têm o dever de praticar, preservar e aprimorar a democracia, significa a ruptura jurídica e política de todo o tecido social. E isso tem um nome, em que o sofrimento se sobrepõe a qualquer vestígio de poesia: fascismo.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





