Os que se doam não exigem paga
Certas questões, no Brasil, são tratadas com zelo excessivo e nem sempre por absoluta e sincera defesa humanitária de cidadãos envolvidos. Impera mais o temor de ferir melindres e conceitos sedimentados, que ganham status de intocáveis. Situa-se nesse círculo a política das indenizações a vítimas do regime ditatorial dos anos 60 e 70 e no momento em evidência. Pela palavra de autoridades e advogados de renome, estão ocorrendo injustiças ao se pagar indenizações milionárias a certos militantes prejudicados pela ditudura, em detrimento de outros que não são contemplados com idêntico benefício. Não faltam os oportunistas que visam tirar o máximo proveito, e tal situação está exigindo um reordenamento da lei pertinente. O Secretário dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, diz que a Lei da Anistia contém distorções graves, porque permite o enriquecimento de alguns militantes da época, com dinheiro público que falta para programas sociais importantes. A conta das indenizações chega a R$ 4 bilhões, e em sã consciência não se sabe até que ponto existem tantos legítimos credores, destes que dedicaram sua vida com tanto amor pela Pátria naquele período. As correntes da comoção e da vitimologia são fortes, mas a verdade é que, naqueles anos de chumbo, não havia, de um lado, apenas algozes, e de outro cândidos cidadãos cheios de ardor patriótico em defesa de uma suposta população sofrida e atada às masmorras do sistema então dominante. O povo brasileiro era indiferente ao regime ditatorial, porque tal não o atingia e tinha a ver mais diretamente com os segmentos envolvidos com a militância e com a guerilha armada, que se opunham ao comando político pelos militares; tinha a ver, sim, com instituições civís fortes e com os jornalistas conscientes e defensores da democracia política e econômica. (Hoje apenas a primeira foi atingida, e ainda com imperfeições, mas a outra não). O povo não participava, sobretudo porque não desejava, a não ser mais tarde, quando eclodiu o movimento pelas eleições diretas. Como agora, os cidadãos visavam a estabilidade econômica e a consequente paz social. Muitas famílias de militantes da esquerda sofreram, presos políticos foram torturados e muitos morreram, outros até hoje amargam sequelas incuráveis, mas o que não pode haver é oportunismo de muitos em assaltar o Estado, porque o dinheiro não é dos ditadores da época e também não é do Governo, mas do povo. Se alguns desses combatentes, ainda vivos, dedicaram sua militância e sua vida pela causa da pátria, devem então doar essa luta ao ideal a que serviam, não sendo necessária agora nenhuma recompensa; e os descendentes dos militantes mortos, estes que respeitem a memória dos seus se acreditam que eles batalharam por uma boa causa. Buscar receber pagamento por uma luta atribuída como tão nobre, se é que foi realmente assim em todos os casos ademais deles, combatentes, e não dos descendentes é macular a causa, é conferir-lhe um caráter mercenário. Os que se doam não exigem paga, e se houve os que derramaram seu sangue por um ideal patriótico, que os familiares respeitem esse seu legado; se os ainda vivos também o fizeram com o mesmo espírito, devem viver a glória dos heróis e doar seu sacrifício do passado como tributo à vida e à pátria.





