Os puxa-sacos e o MST
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de abril de 1997
Antônio Delfim Netto 
Nós viemos dizer ao presidente aquilo que seus puxa-sacos não contam: que a política econômica está gerando desemprego e provocando êxodo rural.
A frase é do sr. João Pedro Stédile, do MST, pouco antes de participar de audiência com o presidente da República, em Brasília. Pode-se reclamar do estilo rude da cobrança, mas não de sua pertinência.
Há pelo menos três anos o presidente e seus auxiliares têm sido alertados para as consequências do tratamento dispensado ao setor agrícola. Qualificar de rude esse tratamento seria uma forma extremamente elegante de mostrar os fatos.
O crescimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra era algo absolutamente previsível, desde o instante em que o governo decidiu que não teria mais uma política ativa em relação à agricultura. Quando retirou o suporte à política de garantia dos preços mínimos (no governo do qual participou como ministro da Fazenda o nosso atual presidente), permitindo o descasamento entre os preços pagos ao produtor e as taxas de juros dos financiamentos, a consequência imediata foi a brutal descapitalização do setor agrícola. Houve uma enorme transferência de recursos do campo para os setores urbanos. Quem não enxergou esses fatos e por quantas vezes o governo foi alertado?
Descapitalizado, com o patrimônio penhorado e os preços de seus produtos ainda mais aviltados com o favorecimento às importações, como podia o agricultor manter seu negócio funcionando?
Apesar da desvantagem, com o sacrifício, teimosamente, os que tinham algum fôlego se aferraram à terra. Mas, de um ano para o outro, 2 milhões e 300 mil hectares deixaram de ser cultivados no Centro-Sul, a região mais produtiva.
Nas culturas de grãos, onde cada 5 hectares ocupa o trabalho de um homem/ano, a redução do plantio representou a supressão de 400 mil empregos. As facilidades na importação do algodão, o desestímulo às exportações de banana e o extermínio das plantações do cacau, dentre outras culturas, produziram mais desempregados.
Em que beiras-de-estrada, em que acampamentos, em que periferias urbanas se abrigam estes milhares de trabalhadores? E que respostas a política do governo ofereceu para que eles voltassem a ter a oportunidade de trabalhar a terra?
O governo só dá recursos na televisão. Na terra, nada - é o brado do agricultor sem terra Delmar Carlos Shaft, do Rio Grande do Sul, reproduzido na coluna do jornalista Elio Gaspari.
Os sem-terra não podiam se reunir num elegante jantar do Rotary - como sugeriu um ministro - e dali enviarem um memorial ao Planalto. Eles decidiram ir a Brasília porque certamente estão cansados de assistir na televisão à propaganda do governo mostrando o que não existe.
Ainda assim, o governo parece não ter entendido que a dramaticidade do problema não se esgota na situação dos sem-terra. Há o outro lado da moeda: a queda dos investimentos no setor agrícola diante da insegurança dos proprietários de terra (dos que produzem e vivem nas fazendas), quanto à integridade de seus patrimônios.


