Os próximos passos
A até agora bem-sucedida parceria entre governo e setor bancário e financeiro coloca em pauta novo debate entre analistas desse dinâmico segmento da economia brasileira: tal modelo poderá continuar a ter sucesso nos próximos anos ou já estaria próximo da exaustão e, neste caso, quais seriam os próximos passos das duas partes para a definição de futuras parcerias.
A parceria entre governo e setor bancário hoje acontece essencialmente em três níveis: na arrecadação de tributos, na compra e colocação de títulos e papéis emitidos pelo Banco Central, e na captação de recursos externos.
Os resultados dessa aliança entre governo e setor bancário são bastante conhecidos: recordes fantásticos na arrecadação tributária federal, administração competente da dívida pública interna e ingresso regular de capital estrangeiro para fechar as contas do balanço de pagamentos.
A combinação de alguns fatores em 2002 (sucessão presidencial, volta da política de superávits na balança comercial, redução da entrada de capital estrangeiro, em razão dos atentados terroristas em Nova York, e da consequente mudança nas prioridades da política externa americana) sugere rápidas mudanças em tal parceria.
Os debates que ocorrerão ao longo de 2002 entre candidatos à sucessão de Fernando Henrique Cardoso serão uma prévia daquilo que poderá mudar, a partir de 2003, na atual política econômica do País. Uma coisa já parece certa: independentemente de quem vier a ser o próximo presidente da República, a prioridade aos superávits fiscais será abandonada.
Por sua vez, a questão dos superávits comerciais (já se fala em US$ 5 bilhões para 2002) é mais urgente e terá de ser resolvida logo, porque ao longo do próximo ano a queda no ingresso de capital estrangeiro será expressiva.
Portanto, a nova parceria entre governo e setor bancário terá de ser esboçada em 2002 e concluída em 2003, primeiro ano do mandato do sucessor de FHC. Nesse contexto, a provável mas ainda incerta permanência no posto do atual presidente do BC, Armínio Fraga, poderá acelerar bastante a definição dessa nova aliança.
De 2003 a 2005, os primeiros passos da nova parceria terão de ser dados. É pouco tempo, sem dúvida, para a grandeza dos desafios: queda nos atuais níveis de juros básicos de 19% ao ano para algo em torno de 8%; reforma tributária e fiscal, que desonere de fato o setor produtivo, a fim de adequá-lo à concorrência a que será exposto, com a adesão brasileira à Associação de Livre Comércio das Américas (Alca); maior atuação dos bancos no financiamento da produção e da exportação.
Mas isso é apenas o começo. Será preciso ainda nesse exíguo espaço de tempo que o setor financeiro recrie rapidamente condições para a volta do mercado de capitais, praticamente destruído, conforme tem dito o ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto, em razão dos juros estratosféricos.
Por sua vez, os bancos terão de transformar-se mais e mais de credores da indústria, do comércio, da agropecuária e dos serviços em sócios, como, felizmente, já vêm fazendo a Itaúsa, a Bradespar e a Unibanco Holding, as poderosas empresas que coordenam e administram as participações em outros setores dos três maiores bancos privados do País.
Para encerrar, vou expor algumas taxas básicas de juros e interbancárias vigentes, em fins de novembro de 2001, em alguns países selecionados, que farão parte da Alca: Canadá (4,50% ao ano), Chile (7,31% ao ano, taxa interbancária), México (5,25% ao ano) e Peru (14% ao ano, taxa interbancária).
MIGUEL IGNATIOS é presidente do Conselho Deliberativo da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB)





